Coisas lindas:

6/ 8/ 2009

Old Fools, The Magnetic Fields, minha pequena obsessão de sempre :)

Terceiro corpo

5/ 8/ 2009

(texto-espelho, inspirado em *************** , e publicado no Pássaros Achados :))

Eu quero me iludir, quero me orgulhar, algum dia, de qualquer coisa que quebrei, quero quebrar com as mãos e que então me rasgue fundo e forte e que seja

com dor,

quero qualquer dor, vou carregá-la nos braços, minha dor, como um filho, e atravessar minha terra e caminhar sobre as águas de minha terra e, atrás de mim, quero que as águas se quebrem a meus pés e deixem um rastro de vidro partido e seja por toda parte sempre aos pedaços, eu quero quebrar

com as mãos,

com a pedra de um muro/ o coração de um homem /o corpo de um filho /um cão que late, eu quero me orgulhar, algum dia, de qualquer coisa, nos braços, como um filho, e atravessar minha terra com dor e que as águas de minha terra cheirem a aguardente e ferro e pedra e sejam coisa que se bebe inteira e ardendo, eu quero que seja uma quantidade de

lágrimas

 jamais chorada, eu quero tanta água, e que ela escorra sem música e entre como fresta de luz pela janela e atravesse o quarto e seja claridade, minha dor, como chuva em tarde quente no chão de minha terra, e faça subir o cheiro molhado de minha terra e que então eu não tenha sequer como chorar nos olhos e me doa

um homem

em todo o corpo, que eu quero me orgulhar, algum dia, de ter quebrado, e que ele chegue e entre e deite-se a meu lado e me abrace primeiro, como se fôssemos carvalhos, e depois, como se fôssemos do vidro mais frágil, eu quero que me diga não precisava ter medo só por causa de alguns cacos, e me lave como água de rio e me cubra de silêncio e que seja assim um ato de amor desesperado, eu quero então que de todo e tanto amor não terminado, aos pedaços, com as mãos, minha dor,

nós sejamos pagos.

Pássaros Achados

4/ 8/ 2009

Vocês estão convidados a integrar o blog coletivo “Pássaros Achados” (http://passarosachados.blogspot.com/), recém-criado para o terrorismo poético – na vida e no texto.

“Não acho que a poesia seja uma coisa organizada. Ela é caótica. É o joelho ralado e o cabelo despenteado, o vestido rasgando-se na barra. A poesia tem sal. Ela é viva, quente e estranha. É tudo que temos para evitar que despenquemos pelo mundo como uma pedra caindo. É nossa cor e nossa luz, é o lugar em que nós nos derramamos. O lugar em que afinamos alguns pássaros, certos tipos de chuva, as ondas do mar, o choro escondido. A poesia é esse lugar perigoso.

Este blog é para nós, pela resistência poética.”

 :)

Pássaros Achados

Pessoas,
 
Terminei minha dissertação!
Esse trabalho foi doído de escrever.
Ele me veio junto, de uma vez só, em uma época difícil – e tem mais coisas nele do que, na verdade, está escrito.
Tem das coisas que viveram comigo caladas.
Tem de vocês muito.
Tem silêncios.
Nenhum examinador vai saber exatamente da matéria calada e doída e amada de que foi feito esse trabalho.
Mas eu acho que ele vale só por causa dessa matéria, digamos, invisível.
Por isso, eu queria agradecer a cada um de vocês
muito.
 
Então, segue aqui o agradecimento que fiz e é para vocês (e está lá publicado!):
 
“Há uma crônica de Eduardo Galeano em que, ao ver o mar pela primeira vez, um dos personagens se emudece.
Quando finalmente consegue falar, pede ao outro:
” – Me ajuda a olhar!”
Neste trabalho, agradeço a meu orientador,
aos professores, colegas, alunos, amigos,
a todos que sempre
me ajudam
a olhar.”
 
:)
 
Beijos,
Ju

Travessia

1/ 8/ 2009

Minha avó conta: ela mora tão longe! Todos os dias, a Cida atravessa chão de terra, pega a condução, desce na Amazonas, pega outra, vai fazer faxina, leva roupa para lavar, vende roscas. A Cida atravessa a cidade, depois pega o ônibus, desce na Santos Dumont, pega outro, atravessa o chão de terra, chega em casa. A Cida chega, atravessa a rua, faz a janta, come sozinha, talvez ligue a TV, vai dormir depois da novela. Todos os dias, a Cida atravessa a casa, a estrada, a cidade, a rua, só para depois, todos os dias, poder sentar na cama, acariciar a coberta. Todos os dias, a Cida arruma o quarto do filho que morreu. Tão longe como, vó? Todos os dias, ela atravessa uma escuridão.

Pelos velhos tempos :)

“Como se dá isso
De não sentir nada

E saber
Por isso mesmo

Que é dor

E oferecer essa matéria
De que é feita a ausência

Como se fosse uma jóia
Lapidada

Para nada

Um anel de casamento
Ao avesso

Como acontece isso
De tentar mover as palavras

E elas
Ao menor sinal da fala

Se tornarem tão pesadas”

[Poema do Everton, que é som pesado, como o mar, enchendo os ouvidos]

:)

Veneno

11/ 7/ 2009

“- Tens medo de fazer amor comigo? / – Tenho – respondeu ele. / – Por eu ser preta? / – Tu não és preta. / – Aqui, sou. / – Não, não é por seres preta que eu tenho medo. / – Tens medo que eu esteja doente… / – Sei prevenir-me. / – É porquê, então?/

 - Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.”

[Mia Couto. "Venenos de Deus, remédios do Diabo." Roubado do Vitor]

:)

Pelo caminho

6/ 7/ 2009

bambi

bambi2

Lenha

15/ 6/ 2009

Eu precisei usar o corpo inteiro. Foi pesado e físico e me deixou exausta, até doerem-me pernas e braços e rebentar-me o corpo de dor violenta e nova.  Durante um tempo, eles se deram as mãos e permaneceram dolorosamente ligados. Comeram do pão temperado de tristeza. Ficaram calados. Dormiram exaustos, com suas cabeças se tocando, como cães. Jamais serei tão jovem novamente com outra pessoa. Agora tenho um lugar, em alguma parte da terra, ao qual não posso nunca mais voltar. Por isso, precisei usar o corpo inteiro, e muitas vezes, e sem piedade, e com estranhos, até rebentar. Algo foi para sempre esmagado e algo tornou-se para sempre vivo. É na pele que conservo, por baixo, protegido contra todos, um resto do calor do dia, iluminando por dentro. Às vezes, eu me deixo ficar nesse lugar estreito e quente e presto muita atenção: ali, quieta, estou tão jovem, tão em silêncio. Não há gritos. Nada foi esmagado ainda. O que a pele conserva não foi sequer tocado. Nesse lugar estreito e quente, estou no meio do meu amor. E parece ser tão cedo.