(texto-espelho, inspirado em *************** , e publicado no Pássaros Achados :))
Eu quero me iludir, quero me orgulhar, algum dia, de qualquer coisa que quebrei, quero quebrar com as mãos e que então me rasgue fundo e forte e que seja
com dor,
quero qualquer dor, vou carregá-la nos braços, minha dor, como um filho, e atravessar minha terra e caminhar sobre as águas de minha terra e, atrás de mim, quero que as águas se quebrem a meus pés e deixem um rastro de vidro partido e seja por toda parte sempre aos pedaços, eu quero quebrar
com as mãos,
com a pedra de um muro/ o coração de um homem /o corpo de um filho /um cão que late, eu quero me orgulhar, algum dia, de qualquer coisa, nos braços, como um filho, e atravessar minha terra com dor e que as águas de minha terra cheirem a aguardente e ferro e pedra e sejam coisa que se bebe inteira e ardendo, eu quero que seja uma quantidade de
lágrimas
jamais chorada, eu quero tanta água, e que ela escorra sem música e entre como fresta de luz pela janela e atravesse o quarto e seja claridade, minha dor, como chuva em tarde quente no chão de minha terra, e faça subir o cheiro molhado de minha terra e que então eu não tenha sequer como chorar nos olhos e me doa
um homem
em todo o corpo, que eu quero me orgulhar, algum dia, de ter quebrado, e que ele chegue e entre e deite-se a meu lado e me abrace primeiro, como se fôssemos carvalhos, e depois, como se fôssemos do vidro mais frágil, eu quero que me diga não precisava ter medo só por causa de alguns cacos, e me lave como água de rio e me cubra de silêncio e que seja assim um ato de amor desesperado, eu quero então que de todo e tanto amor não terminado, aos pedaços, com as mãos, minha dor,
nós sejamos pagos.