Para escrever a neblina:

 ju1.jpg   Nunca esqueço um rosto. Casualidades me encantam. Minha cor predileta era  o lilás, agora é vermelho sangue. Derrubo coisas, esbarro nos móveis, tropeço nos meus pés. Vento nos cabelos me parece carinho. Só dou manota. Meus cachorros se chamam Pacote e Nina. Sempre me apaixono num repente. Coisas miúdas doem mais. Gosto de passar frio. Prefiro cartas. Meu riso faz um estalo de coisa quebrando dentro. Gosto de ficar no escuro. Tenho um pé de pimenta. Bibliotecas me são mais acolhedoras. Meus olhos me traem. Meu cadarço sempre está desamarrado. Som de gaita me emociona. Já pulei o muro da escola para matar aula. Já torci o dedo mindinho jogando queimada. Estou aprendendo a chorar em público. Meu invólucro é fino, uma névoa sem nada dentro. Prefiro jabuticaba. Me esqueço debaixo de sol de inverno. Me esqueço debaixo de chuva. Sou mais de mar que de rio. Mais de silêncios que de palavras, mas sempre tão cheia de palavras. Desde pequena, roubo flores de canteiros públicos. De todas as coisas, prefiro as usadas. Banhos de madrugada limpam mais. Acho taquicardia uma delícia. Sigo desconhecidos na rua e me perco. Tenho medo de altura, qualquer altura. Ouço conversa dos outros. Leio dedicatórias em livros dos outros. Estranhos me abordam dentro do ônibus. Crianças me oferecem bala na escada do meu prédio quando estou triste. Prefiro declarações de amor inesperadas às cinco e meia da tarde. Quero uma filha chamada Sofia, ou Tereza. Gosto de cachorro espreguiçando. Gosto de gente que me pede carinho, principalmente quando abaixam os olhos para me pedir carinho. Meu sobrenome significa neblina: “poeira de água sobre água” *. Antes de dormir, minha mãe abria-me os livros e lia, lia, lia. Para mim, nenhuma história tinha fim. Sempre amei por alegria.   

[Juliana Brina]

* Haicai de Yeda Prates Bernis

6 Respostas para “Poeira de água”

  1. MH disse

    “Só quem tem a alma pura
    Sabe viver com doçura”

    Assim dizia uma figurinha que eu tive quando era criança. Achei que podia colar aqui embaixo, mas a cola era meio velha e ela saiu voando do monitor. Aí veio uma andorinha, deu um rasante, achou que era um poema sério e levou. Deus vai ficar zangado agora, a andorinha vai ganhar uma carraspana. Mas eu vou ver se mando seu endereço pra eles se entenderem – divinamente.

  2. Nininha disse

    Amélie, Amélie!!! Encore cachez-vous vos mains à l’intérieur des sacs des graines?

    “Quem me dera ser tão significado para a palavra…
    Diga: etc… etc…
    Leia-se: está doendo!
    Veja: can’t fight what I see.
    Ouça: chorando… chorando…
    Sinta: Já não estou mas aqui.”

    Paula

  3. Cássia disse

    Achei o seu cantinho por acaso, caminhando por aí, e parei. Lindo e encantador.

    Beijo com carinho.

  4. Danilo disse

    Minha tartaruga era Sofia. Quero passar frio com você.

  5. Mila disse

    “Mais de silêncios que de palavras”…
    nem sei dizer.
    Gostei, muito.

  6. Silvana disse

    ei JU!
    pus seu nome no google e cá estou… quem diria hem.. vc tem um cantinho quentinho e cheiroso desse e não divulga prá ninguém!adorei..principalmente poeira de água… cheio de imagens e de humanidades!
    grato prazer ler palavras tão gostosas!
    FIQUEI com gosto de quero mais na boca!
    beijosssssssss

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