A manchete mais linda que já li:
27/ 3/ 2009
Astrônomos capturam estrela cadente.
:)
[Aqui ó: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u540834.shtml]
Um resto
20/ 5/ 2008
Pode ser depois de uma longa espera. Pode ser na rua, de tarde, depressa, atrasada para colocar uma carta no correio, ou comprar flores, ou pão, pode ser quando você desiste de enviar a carta, ou crisântemos, pode ser que você de repente prefira gérberas, pode ser depois, bem depois, quando você já não espera. Pode ser que você leve consigo uma carta que nunca será lida. Pode ser que você rasgue. Pode acontecer devagar, enquanto alguém se afasta do outro lado da rua, a céu aberto, com vento e folhas e gente. Com dor. Pode ser assim ao redor, ou dentro do quarto, com a porta, a janela, os olhos fechados forte. Pode ser quando alguém te toca o rosto e chove e te doem os olhos. É imprevisível. Você nunca sabe como ocorrerá.
Mas pode ser que alguém te segure as mãos. Pode acontecer de repente, quando alguém chega e traz vinho, tabaco, vergonha, coisas antigas, esquecidas, músicas que ouvimos antes, músicas em algum lugar da casa. Pode ser um lugar em que você cantava, um jeito de dançar, alguma coisa no corpo. É imprevisível. Mas pode ser que alguém te esbarre.
Ou te toque firme. Pode ser que você deixe. Que nem se importe. Que esteja triste, ou simples, ou fatigada. Pode ser que alguém então te rasgue, e seja devagar, ou terno, ou violento. Pode haver várias camadas que alguém rasgue, feito uma carta, ou uma flor num galho, um pedaço de pão repartido. Pode ser que alguém aceite com gratidão esse resto. Ou pode ser só derrisão, alguém rasgando camadas e camadas de terra e gérberas e pão e água e cartas e vergonha, e depois as das coisas mais ternas, as de tentar alegria, as de sorrir forçado, e por fim as camadas mais fundas, as de nem tentar. Pode ser com o céu vermelho. Pode ser que você traga os olhos cheios. É imprevisível.
Mas é sempre debaixo e sujo, é de terra e de repente, feito uma luz desatando-se, um peixe de mar alto que alguém vai puxando firme, uma dor muito enterrada, um resto. Pode ser com os pés molhados, ou em um barco frágil. Pode acontecer com os passos duros, sujos das flores, das cartas, dos beijos, das coisas jogadas, perdidas nos degraus. Mas é sempre água escorrendo com violência, gente que chora calada, que engole, que não olha, sai levando uma carta, coisa limpa, que escorre, que depois apaga devagar os traços. No chão, feito onda quando cobre e recua e devolve o brilho, os despojos, a luz, a dor mais dura.
Pode ser. Pode ser essa coisa pura.
O coração real
6/ 5/ 2008
«Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da un raggio di sole:
Ed è subito sera.»
[Salvatore Quasimodo]
Todos estão sós no coração da terra,
Atravessados por um raio de sol:
E de repente é noite.
[Tradução livre]
Dicionário mágico
24/ 4/ 2008
Desejo:
[Do latim vulgar: desidiu. Do querer da gente: des- + eixo]
A gente vive melhor quando o coração está em casa – e quando essa casa tem um bom fogo. Mas o desejo não é o que queima, nem cintila. É o que vem antes, o desejo é esse espaço quente e branco entre a chama e a vela. Esse quase. Desejo é um jeito só de dentro e corre cego e solto e nunca chega. É coisa do corpo, coisa qualquer que se desprende.
Feito entrelinha quando se demora na gente. A boca costurada por um riso torto e que alguém vai puxando, puxando, até desbordar uma palavra gasta, sofrida, cheia de pó, de céu, de amor, de gérberas, de suor e medo. Uma palavra muito cheia de medo, mas forte, desatada, um fio de riso vermelho que alguém vai puxando, puxando, e depois solta. Desejo é o que se solta, coisa de fazer rasgo e brilho.
Mas é sempre o antes, o que há entre e quase e é quente e branco e então, só então escorre. Deixa um resto de luz que não queima, nem cintila, nem nunca chega, mas é luz que fica.
Quando eu me tornar saudade
4/ 3/ 2008
Amor vem de amor. Vem de longe, vem no escuro, brota que nem mato que dispensa cuidado e cresce com a mais remota chuva. Vem de dentro e fundo e com urgência. Amor vem de amor. Que não cabe, mas assim mesmo a gente guarda. A gente empurra, dobra, faz força, deixa amassado num canto, no peito, no escuro, dentro, ou larga pegando sereno. Amor vem de amor. Vem do pedaço mais feio, do mais sem palavra, do triste, vem de mãos estendidas. É tecido desfeito pelo tempo, amarelecido pelo tempo, pelo cheiro da gaveta fechada, pelo riscado do sol na madeira. Amor vem de amor. Vem de coisa que arrebata, vira chão, terra, cisco, resto, rastro, coisa para sempre varrida. É delicadeza viva forte violenta. Que faz doer, partir, deixar caído. Amor vem de amor. E dói bonito.
:
[Em itálico, Guimarães Rosa.]
Tremor de terra
2/ 9/ 2007
Dentro do sono, no espanto e na ternura, ouça só esse vento na janela. O mundo se agita. Ouça, no meu peito, os golpes com que entalho
riso olhos céu flechas
no corpo, no escuro, como um poço. No meu peito, alguém jogou uma moeda e esperou, esperou, mas não ouviu nada. Ouça agora esse barulho de água, de chão partindo-se, poeira levantada, os fios de água escorrendo pelas fendas, no corpo. Repouse aqui sua face e ouça esse ruído de pedra estalando, rasgando o chão. Encoste bem perto o ouvido ,na terra revolvida do meu peito, e ouça só, dentro do sono, do espanto e da ternura, o vento arrancando, varrendo aquele velho coração de pedra. No peito, no escuro, alguém plantou, regou, viu criar raízes, dar flor, fruto, viu cair um coração novo, de carne, rasgar o chão, espalhar-se. Ouça. O mundo se agita. Agora não existe mais esse vão entre o céu e o chão. Sempre que meu coração treme, a dor se encarna. No espanto, no escuro e na ternura, no meu peito, tome esse tremor de terra. Ouça só esse vento bom na janela.
Pelo Terrorismo Poético:
22/ 8/ 2007
Sobretudo
19/ 8/ 2007
Sempre achei a alegria coisa muito mais séria do que a tristeza. Meu pai já disse que se mata um tigre a cada dia pela alegria. Então, quando alguém me sorri, eu me pergunto o que aquele sorriso lhe custou de dor, de coragem, se foi demorado, se caiu e se quebrou, se é sorriso que alguém viu, ou que se perdeu, eu me pergunto o quanto lhe custou de solidão, de não haver ninguém que lhe toque a testa para dizer pode chorar, chora, chora, chora, ou se o sorriso é fruta apanhada na hora, a mais doce, que dá formiga, se é de presente, de sal, se é sorriso que alguém mereça, ou é só uma forma de represar o choro e ficar simples, simples como um menino com sua bola, muito antes de ser jogado às feras. Quando alguém me sorri, eu me pergunto se seu tigre de cada dia já passou, ou se ainda virá. À esquerda do peito, batendo.
Os peixes abissais
18/ 6/ 2007
Não é saudade o que eu sinto agora. Eu queria que fosse uma dor que sara com remédio, depois o calor no peito, o sol no travesseiro, a convalescença. Queria ser puxada em uma rede de pesca, junto às estrelas do mar, às algas, conchas, queria ser puxada junto aos peixes azuis, vermelhos, cor de prata, os peixes abissais.
Não é saudade. Eu queria que fosse uma dor, o peso do que o coração carrega e as redes prendem, mergulhadas na ternura, e depois o sol no peito, o círculo de fogo, os peixes por terra, sufocando. Queria ser puxada junto a tudo que queima e ao que mais brilha, e fundo, eu queria o mar no fundo, e depois a beleza, a tristeza de tudo que arde.
Não é saudade. Eu queria uma dor, destroços, navio naufragado, um tesouro que se espalha e afunda e perde, onda que recua. Queria ser arremessada de volta, e para baixo, para o céu, brilhante, estilhaçada, cintilando, junto ao que faz doer a vista, água salgada partindo-se contra as rochas. E o sol. Como se fosse o mar quem, em mim, ao rebentar, depositasse a ternura. Saudade, não. Eu queria uma dor que cura.
Pequena morte
1/ 5/ 2007
“… porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”
[Eduardo Galeano]
