Ceia

14/ 8/ 2009

Este é meu corpo, toma

e come de sua parte nesse pão, essa coisa bruta e pobre, pedra que se mastiga, pedra dura ressentida, toma e come e me salga as feridas, deixa a marca dos dentes, e engole com força, com lágrimas, come

de minha boca os choros, as cordas, um som de realejo, toma-me o peito que me bate feito sino e de tão

leve ninguém

escuta e arranca de minha boca o córrego, o mar, a nascente, as pedras na margem, toma

este é meu sangue, é de amor escorrido, riscado de mim, em cortes doídos, toma

até o fim, inteiro e agora,

o que me arrancaste, sem dó, com os dentes, no coração, amor,

agora bebe.

[Publicado também no Pássaros Achados :)]

Saudade:

22/ 8/ 2008

o que toca errado e doce,
coração:
piano fechado
dentro, as músicas.

Um mar

15/ 12/ 2007

Uma vez, o Carpinejar escreveu que “não ser amado é pior do que ser invisível.” Minha avó me ensinou diferente: a gente ama melhor com o coração guardado à força, abaixando os olhos e virando o rosto para represar choro, por delicadeza, só para depois olhar de frente com um sorriso forte de ”nada não.” Minha avó me ensinou: não adianta sentir, nem doer, nem pedir, nem tocar de leve as mãos, toda ternura escorrendo no peito não adianta. A gente ama melhor ficando invisível.

Sobre cordeiros

25/ 11/ 2007

Esperávamos a fera. A pata sangrando, os olhos no chão, pisados: Dá-me de beber. Sob a chuva, a fera chegou e partiu abruptamente. Alguém disse que ela não confiara em nós. Tornamo-nos mais solenes. Em silêncio, a fera voltou, bebeu conosco, deixou-se levar na ponta da espada. Para as muitas águas, com a pureza de seus olhos em nossa presença. No rastro de sal, nós lavamos as mãos, deixamos escorrer a água vermelha, os olhos, a pedra do peito. Não sorrimos: nós nos tornamos melhores.

Respeito

15/ 8/ 2007

Respeito. [Do latim respectare, "olhar muitas vezes para trás"] S. m. 1. Apreço, consideração, cortesia. 2. O que se dá incondicionalmente. 3. Propriedade especial do sentimento. 4. Coisa que se abre sem fazer barulho. 5. Qualidade do que é responsável. 6. O que é próprio dos gestos delicados. 7. Atenção, cuidado, suavidade. 8. Espécie mínima de carinho. 9. Qualidade sutil do que nunca se pede. 10. Aquilo sem o que as coisas mais ternas se quebram. Falta de __: propriedade do que é fraco; pequenos gestos que doem fundo; caco de vidro nas mãos [V. covardia].

Sobre o amor

1/ 6/ 2007

Guilherme tem seis anos, uns olhos que brilham e perguntas que a gente não sabe responder: “Tia, o que acontece quando a gente morre e o coração não pára de bater?” A única coisa que eu pensei foi: amor.

Dos rios se diz que são violentos. Fiquei com isso o dia inteiro, a imagem das calhas dos olhos riscando o rosto. Mas ninguém diz violentas as margens que os comprimem. Isso me acompanhou: as pessoas que escrevem nosso rosto, cavando-nos entrelinhas ao redor dos olhos, para o que escorrerá depois. É bonito pensar nas pessoas como uma parte do nosso rosto, as pessoas que nos deixaram sulcos. Pensar no rosto como um mapa que talvez elas nunca nem leiam, nunca apontem o lugar onde está encondido o tesouro, o lugar de tudo que para sempre brilha, e o da sombra mais fria. É bonito olhar forte para um rosto devastado, até abri-lo um pouco, e ler. Feito beber o que escorre. Como os animais pequenos quando aparecem para beber nos regatos, depois de verem partir as grandes feras.

[Em itálico, Bertolt Brecht]

Falar do jeito como nos olham quando o amor acaba! Falar do amor escorrendo, do rastro de sal que o amor deixa,  e depois o chão seco.  Seco.  Falar do jeito como nos olham quando tudo que resta é uma vontade de ferir, falar desse dardo incendiado, do rastro que ele deixa, dessa claridade derramando-se violenta em uma taça pura. Conheço o sal. Conheço o jeito como tropeçamos num olhar incendiado, com medo de altura, medo e vertigem. O amor é um poço tão fundo! Conheço o sal e a água dos meus olhos. E o poço escuro dos dele. E o meu jeito de tropeçar lá bem no fundo e tentar resgatar um qualquer resto de onda quando recua. De onda secando. Falar do jeito como nos olham quando o amor acaba! Conheço o sal que resta em minhas mãos. Falar de olhos é falar de como todas as coisas se transformam noutra coisa e se apagam entre as mãos. Também de pranto vestiram-na toda. Mas guardo nas pálpebras esse olhar que me deram. Como um manto, mais fino que roupa.

[Em itálico, versos de Fiama Hasse Pais Brandão]

Soltar o abraço devagar, recolher as mãos, abaixar os olhos e calar, virando-se de costas, sorrindo forte, pisando duro, segurando o vaso de flor – “isso não é para os fracos”. Pois é, Ane, “os humanos são os que machucam, são os que pisam fortemente, são os que não perguntam, são os que não respondem, são os que julgam e condenam sem olhar o coração.” Sem olhar. São também os que se perdem por pouco, mas com o coração alegre, e não retrucam, não pedem, não querem ver, são os que se deixam tocar com dureza e quebrar, depois desviam os olhos, recolhem os restos e matam, os humanos são, especialmente, os que matam, mas com todo amor, na palma da mão, guardado. “Perdas humanas paradoxalmente podem ser dor, ou podem ser alívio.” Mas permitam-me apenas segurar este vaso de flor, com as mãos sujas, pisando forte, sorrindo duro, porque agora chega, agora não, agora “eu não quero falar de dores. Nem de alívios.”

[Trechos roubados da Ane, sobre essa coisa clandestina]