Per ardua
9/ 11/ 2009
Uísque
14/ 10/ 2009
"Que tipo de nome
Se dá a essa coisa
Sob a carne
Que simplesmente não pode
Em todas as direções"
;)]
Você bebe do meu copo
partido, amor
o que o mar juntou no fundo, você bebe rindo
com os lábios rasgados e me deixa um rastro
vermelho
no corpo, você bebe
e bate, bate, agarra-me os cabelos, me arranca
um gemido um grito cada tremor cada um e sem me despir
e sem se despir
me entra em pé e durante e depois, me bate
mais e mais e novamente e diz
você é minha tristeza, amor
e eu rio
e você mar,
seus dentes fincados
âncora
no meu ombro, no peito, e embaixo,
e me bate, batemo-nos como os cascos
dos navios,
como navios aprendemos, com o mar
como o mar, colocamos os corpos
em perigo.
Você me bebe
rindo,
e partido, e me agarra, enfia, arranca, morde, cospe,
e bate, vai
bate com as costas
das mãos
forte
me salga, me trespassa
bate, amor
com a fúria das bestas
como quem castiga um cavalo
rebelde.
Eu bebo da sua garrafa mesmo
sem copo, é assim que nos comunicamos
é pelo corpo
não, sim, está frio, o tempo está bom, obrigado
como crianças que não sabem falar
bate
forte
vai
é assim, como dois soldados feridos depois da guerra
me agarra, enfia, mete, arranca, engole,
como cavalos,
e mais e mais e novamente, e embaixo, e atrás,
sangue e água e sal correm de nós, maré que enche, vaza, escorre
lágrima por lágrima, nós lavamos
com álcool
a solidão
entre nós.
Sem copo,
nós a bebemos sem copo, da garrafa mesmo, com o corpo
amassado das pegadas, partidos, com álcool
e orgasmos, arrancados de nós com um rugido
de mar
na tempestade
em fúria, o rugido de alguém ferido por uma rajada
de tiros.
E eu rio
e você mar, e não deixamos nada de nós?
os dois
no fundo, no corpo, na foz, no mar
que atravessamos
com dor,
com o galope molhado
dos animais.
Sobre o muito pequeno
3/ 10/ 2009
“Aprendo mais com abelhas do que com aeroplanos. É um olhar para baixo que eu nasci tendo. O ser que na sociedade é chutado como uma barata cresce de importância para o meu olho. Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo. Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão antes que das coisas celestiais. Pessoas pertencidas de abandono me comovem: tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.”
[Manoel de Barros]
Confissões
8/ 9/ 2009
Nunca esqueço um rosto. Casualidades me encantam.
Homem meu tem que me dizer meu bem. Tem que me dar flores roubadas e meter-se feito sol dentro do corpo, o sol quando fica na pele mesmo quando já é noite. Eu gosto do mel no favo, do amargo no fundo do doce (o amargo dura mais). Eu me defendo do amor. Prefiro o outro lado, o do fogo silencioso na guerra. Não sou de chorar. O mar me atinge é direto no peito. Eu sou é de abraçar.
Derrubo coisas, esbarro nos móveis, tropeço nos meus pés. Sempre me apaixono de repente. Vermelhos são meus vestidos, meus cadernos, minha flor predileta. Minha alegria é vermelha. Meu riso faz um estalo de coisa quebrando dentro. Gosto de ficar no escuro. Coisas miúdas me doem mais. Prefiro declarações de amor inesperadas (às cinco e meia da tarde). Vento nos cabelos me parece carinho. Gérbera é minha flor predileta. Coleciono dragões em miniatura. Tenho um cachorro chamado Pacote. O lugar mais longe em que já fui é:
dentro.
Meus olhos me traem. Meu cadarço sempre está desamarrado. Som de gaita me emociona. Não me interesso por pessoas sem dúvidas na vida. Já pulei o muro da escola para matar aula. Já torci o dedo brigando no recreio. As únicas coisas que herdei de minha mãe são
a falta de discernimento
olhar as nuvens
o silêncio
um riso
e o furinho no ombro esquerdo,
o resto não, a menina saiu ao pai. Meu invólucro é fino, neblina sem nada dentro. Prefiro jabuticaba. Estou aprendendo a chorar em público. Acendo lâmpada com os olhos. É na chuva que eu gosto de dançar. Meu coração eu acho que fica nos pés, de tanto partir. Sou mais de mar que de rio. Mais de silêncios que de palavras. De todas as coisas, prefiro as usadas. Desde pequena, roubo flores de canteiros públicos.
Sempre me atraso. Amor para mim é nosso tempo nas coisas. É o tempo, coisa para se perceber depois com os olhos distraídos e reparar fechando-se, sem saber exatamente o momento em que se cala, mas sentindo o coração doer pequeno com esse
calando-se
em contínuo, sem saber onde termina, nem se começa, ou volta, ou onde, alguém sabe para onde?
Eu nunca me curei da minha infância. Sigo desconhecidos na rua e me perco. Ouço conversa dos outros. Leio dedicatórias em livros dos outros. Estranhos me abordam dentro do ônibus. Crianças me oferecem bala na escada do meu prédio quando estou triste. Quero uma filha chamada Sofia (ou Tereza). Gosto de cachorro quando espreguiça. Gosto de gente que me pede carinho, principalmente se abaixam os olhos para me pedir carinho.
Gosto das coisas assim, no momento exato em que elas acabam para sempre. Eu sou feita de saudade. Qualquer coisa fechando-se é mais bonita. Para mim, a palavra mais linda de todas é travessia. Sou de agarrar com força. Sempre amei por alegria.
Etimologia
23/ 8/ 2009
chamo-me juliana brina, sou duas, eu sou
aquela menina
encolhida no canto do quarto, para chorar calada, de costas para o mundo, a menina de repente sozinha, e sou
aquela mulher
que será para sempre o sal dos teus olhos, será tua água e teu pão, a mulher cujo cheiro vai se agarrar a teus dedos, ao corpo, a que vai te doer,
aquela
aos pedaços, de tanto partir, a que vai bater portas e janelas e caminhará para longe, cheia de fúria, com o coração alto, feito o mar, eu sou
duas, a que engole as lágrimas, neblina ao redor, cobrindo tudo, e a que te dá de comer o sal pela boca, como fazem os pássaros com os filhotes, neblina com luz dentro, eu arranco meu amor de mim todos os dias
com os dentes
e meu coração é um resto.
[Publicado também no Pássaros Achados :)]
Primeiro haicai
9/ 8/ 2009
Carinho de olhos:
O gosto do preto e depois o do branco
Feito jabuticaba
Só que triste.
[Publicado no Pássaros Achados :)]
Terceiro corpo
5/ 8/ 2009
(texto-espelho, inspirado em *************** , e publicado no Pássaros Achados :))
Eu quero me iludir, quero me orgulhar, algum dia, de qualquer coisa que quebrei, quero quebrar com as mãos e que então me rasgue fundo e forte e que seja
com dor,
quero qualquer dor, vou carregá-la nos braços, minha dor, como um filho, e atravessar minha terra e caminhar sobre as águas de minha terra e, atrás de mim, quero que as águas se quebrem a meus pés e deixem um rastro de vidro partido e seja por toda parte sempre aos pedaços, eu quero quebrar
com as mãos,
com a pedra de um muro/ o coração de um homem /o corpo de um filho /um cão que late, eu quero me orgulhar, algum dia, de qualquer coisa, nos braços, como um filho, e atravessar minha terra com dor e que as águas de minha terra cheirem a aguardente e ferro e pedra e sejam coisa que se bebe inteira e ardendo, eu quero que seja uma quantidade de
lágrimas
jamais chorada, eu quero tanta água, e que ela escorra sem música e entre como fresta de luz pela janela e atravesse o quarto e seja claridade, minha dor, como chuva em tarde quente no chão de minha terra, e faça subir o cheiro molhado de minha terra e que então eu não tenha sequer como chorar nos olhos e me doa
um homem
em todo o corpo, que eu quero me orgulhar, algum dia, de ter quebrado, e que ele chegue e entre e deite-se a meu lado e me abrace primeiro, como se fôssemos carvalhos, e depois, como se fôssemos do vidro mais frágil, eu quero que me diga não precisava ter medo só por causa de alguns cacos, e me lave como água de rio e me cubra de silêncio e que seja assim um ato de amor desesperado, eu quero então que de todo e tanto amor não terminado, aos pedaços, com as mãos, minha dor,
nós sejamos pagos.
Carta a todos vocês
4/ 8/ 2009
Pessoas,
Terminei minha dissertação!
Esse trabalho foi doído de escrever.
Ele me veio junto, de uma vez só, em uma época difícil – e tem mais coisas nele do que, na verdade, está escrito.
Tem das coisas que viveram comigo caladas.
Tem de vocês muito.
Tem silêncios.
Nenhum examinador vai saber exatamente da matéria calada e doída e amada de que foi feito esse trabalho.
Mas eu acho que ele vale só por causa dessa matéria, digamos, invisível.
Por isso, eu queria agradecer a cada um de vocês
muito.
Então, segue aqui o agradecimento que fiz e é para vocês (e está lá publicado!):
“Há uma crônica de Eduardo Galeano em que, ao ver o mar pela primeira vez, um dos personagens se emudece.
Quando finalmente consegue falar, pede ao outro:
” – Me ajuda a olhar!”
Neste trabalho, agradeço a meu orientador,
aos professores, colegas, alunos, amigos,
a todos que sempre
me ajudam
a olhar.”
:)
Beijos,
Ju
Lenha
15/ 6/ 2009
Eu precisei usar o corpo inteiro. Foi pesado e físico e me deixou exausta, até doerem-me pernas e braços e rebentar-me o corpo de dor violenta e nova. Durante um tempo, eles se deram as mãos e permaneceram dolorosamente ligados. Comeram do pão temperado de tristeza. Ficaram calados. Dormiram exaustos, com suas cabeças se tocando, como cães. Jamais serei tão jovem novamente com outra pessoa. Agora tenho um lugar, em alguma parte da terra, ao qual não posso nunca mais voltar. Por isso, precisei usar o corpo inteiro, e muitas vezes, e sem piedade, e com estranhos, até rebentar. Algo foi para sempre esmagado e algo tornou-se para sempre vivo. É na pele que conservo, por baixo, protegido contra todos, um resto do calor do dia, iluminando por dentro. Às vezes, eu me deixo ficar nesse lugar estreito e quente e presto muita atenção: ali, quieta, estou tão jovem, tão em silêncio. Não há gritos. Nada foi esmagado ainda. O que a pele conserva não foi sequer tocado. Nesse lugar estreito e quente, estou no meio do meu amor. E parece ser tão cedo.
Véu
23/ 5/ 2009
Foi o acaso que me deu o nome que tenho. Uma menina passou correndo na praça, esbarrou em minha mãe, alguém gritou atrás: Juliana! Essa menina é meu ingresso doloroso na alegria. Ela me esbarra direto no peito, violenta, quente, com dor: nós nos enfrentamos. É pela carne que Juliana me invade, bate portas e janelas, rebenta-me os vidros. Depois senta-se, estende-me as mãos. Minha dor, me dá a mão. Juliana é maré irrefreada e sem ondas, subindo obstinada e lenta, de um jeito calmo e mau. Com dor, toda água escorre de mim e escorre para a alegria, esse caminho escuro.
Às vezes, quero esquecer Juliana, a menina correndo numa praça. Não a chamem, não gritem mais esse nome. Espero que a vegetação em torno cresça depressa, depressa, com dor, até que me trinquem os ossos, como um destino. Até que me invada o jardim de que preciso. Um jardim enorme. Então, sigo por ele, há uma porta no meio, entro e digo: quero flores. Juliana sai comigo, mostra o jardim enorme e diz: quais? Eu escolho: essas vermelhas. É um caminho calmo e mau. Dentro, as flores vão sendo arrancadas uma a uma – com as mãos. Essas com os espinhos. Não desvio o olhar, nem afasto o rosto. Quero todas. Por alegria, como um destino, escorre de mim, com dor, a menina correndo na praça: estátua derrubada de mim. Não a chamem. Nós nos enfrentamos, pela carne, no sol inclemente, cegas. Nos meus olhos, Juliana se quebra, como a onda sobre uma pedra ou o caule na palma da mão. Me dá a mão, minha dor. É quente e violento e direto no peito. Não afasto meu rosto. Vejo meu sangue escorrer calmo e mau, como se fosse o sangue doente de um inimigo.