Por sorte

9/ 4/ 2008

[Daqui ó]

:)

 

Sobre a amizade

10/ 9/ 2007

“Como diz o provérbio, os homens não podem conhecer-se mutuamente enquanto não houverem provado sal juntos (…).”

[Aristóteles - Ética a Nicômaco]

Feliz Aniversário

12/ 8/ 2007

Ontem, minha avó fez anos. Teve festa com bolo e canudinho de doce de leite. Ela ficou na ponta da mesa, quieta. Prefere ouvir o barulho das pessoas. Algumas envelheceram mais rápido. Eu também queria parar o tempo, vó, congelar as vozes, os risos. O bisneto correndo pela casa, quebrando coisas. Como uma fotografia: “Isso também fere.”

Eu me lembro de quando era pequena e brincávamos de fazer túneis no canteiro de terra que não dava flores. Minha mão cavando em direção à mão de minha avó, até as duas se tocarem debaixo da terra. Vovó então dizia: “Encontramos”. Encontramos, vó, é contra nós que o tempo despeja toda a sua fúria, agora, muito. E fere, em nosso entrecruzar de olhos sobre a mesa.

Mas é uma ferida imperceptível.

Bilhete

7/ 8/ 2007

Antes do abraço, antes do roçar do rosto, antes da ternura dentro, entre e ao lado, como um regato dentro de um rio, a corrente impetuosa do segundo abafando o soluço do primeiro, entre as pedras, escorrendo, dentro do peito, como quem entra na água, as mãos à frente, ao redor e antes, bem antes, para tocar a luz do teu começo: aquilo me atravessou, como uma fresta de porta abrindo-se.

Para a claridade. Agora, mesmo quando seus olhos não estão, a luz continua.

Cuidado, plágio!

6/ 8/ 2007

Foi no site www.copyscape.com que descobri: plagiaram meu texto “Entre parênteses”! Coisa feia… Então, eu digo para essa mocinha aqui: você nem precisa roubar as palavras alheias, uai. Escreve tão bonito.

Tsc.

A precariedade

28/ 7/ 2007

A precariedade me comove. Por enquanto, me enternece a delicadeza de pousar

minha mão
em outra mão

por encanto, um passarinho pousando. O pequeno coração batendo depressa, debaixo da asa:  

ferida feita no vôo.

Primeira carta

21/ 7/ 2007

Creio que foi o sorriso, foi o sorriso quem abriu a porta. Ontem, eu voltei do almoço escrevendo, pelo lado de dentro, este começo de carta: creio que foi seu sorriso. Na verdade, foi a lembrança do sorriso. E quis te perguntar se você também teve uma lembrança qualquer, dia desses, e quis me dizer – mas depois achou melhor não. Melhor não, pensei, mais prudente é cuidar da lembrança com tato. Falemos sobre as pequenas coisas que nos cercam, falemos vagarosamente, para que durem. Façamos um pacto de silêncio enquanto caminhamos.

Ontem, enquanto caminhamos, eu fui escrevendo, pelo lado de dentro, este começo de carta para você: creio que foi o sorriso. Era um sorriso com muita luz lá dentro. Me dava a impressão, porém, de que, se alguém entrasse nele, havia de encontrar ali alguma velha ferida sangrando, um rio correndo. E quis saber se você às vezes se pergunta: o que é isso no peito, isso que parece asa? Melhor não, pensei, mais prudente é cuidar do sorriso com tato. Fazer do silêncio a minha forma de te acompanhar: os olhos é que são, enfim, minha verdadeira boca. Melhor não. Nem é do sorriso que eu mais gosto, ou da lembrança do sorriso. O que eu prefiro mesmo são os defeitos, tudo o que você não consegue, onde falha, onde não pára nunca de doer: eu prefiro o rio correndo lá dentro. É isso que quero ter perto.

Ontem, eu te abracei escrevendo este começo de carta: para ter dentro e de bem perto.

Sobre a metáfora

2/ 7/ 2007

Por que é que, quando me dão um vaso de girassóis, eu leio paixão, ou transbordamento, ou carne viva, ou qualquer outra coisa, menos girassóis?

:)

A função do poema

15/ 6/ 2007

Ontem, depois da nossa aula, o Andityas veio me mostar uma edição de poemas peruanos que ele prefaciou (“O rio que fala”, Editora 7 Letras). Ia me mostrando um poema seguido do outro: “Deixa eu só te mostrar mais este.” E este, e mais este. Eram poemas bonitos mesmo, eu nem conhecia nada de poesia peruana. Mas o que tornou os poemas mais bonitos foi aquele pequeno ato de ele compartilhá-los com paixão, gratuitamente: “Este poema é bonito demais, não acha?” Eu acho. Eu acho que escrever, ler ou compartilhar poemas é como passar bilhetes de mão em mão, em silêncio, numa espécie de solidão acompanhada, que é essa nossa condição no mundo.

No início do ano, num dia em que eu estava especialmente triste, minha avó tirou da gaveta do criado-mudo um bilhete que eu havia escrito para ela quando era pequena, a letra redondinha e alguns desenhos de peixes com traço torto, coloridos: “Querida vovó, eu te amo como o mar no fundo.” Ela me deu aquele bilhete e disse para eu guardá-lo comigo. Por que isso, vó? “Às vezes, a gente precisa de algo que nos lembre da nossa inocência original.”

Eu acho que essa é mais ou menos a função do poema.

Eternuridade

3/ 6/ 2007

Três minutos podem ser uma coisa muito demorada. Em três minutos, viajo puxando a linha do meu vestido, o fio lilás, num rodopio: três minutos entre o alô, o balanço de uma asa, oi, um sopro num fio de cabelo, como vai?, três minutos entre um punhado de coisas, tudo bem?, a ligação quase caindo, tudo bem, o ônibus quase chegando em Curvelo, e vc?, a lua subindo um palmo na janela, legal, alguém tossindo, então tchau, num rodopio, tchau e boa sorte.

Três minutos podem ser uma coisa muito breve. Em três minutos, há palavras que não cabem: entre o alô, o amor não sei se é possível, oi, se cabe em três minutos, você está feliz?, ou só a memória do amor, ou está triste?, o amor esgarçado, eu só acredito na ternura assim, saudade é palavra comprida demais, assim, não cabe em três minutos, assim suspensa, comprida demais na minha mão.

Em três minutos, quando o giro se completar, seus olhos mudaram?, estarei de volta, quem o ilumina de longe para que não caia?, saudade tem som de instrumento de cordas, você reconheceria os meus olhos?, uma qualquer lâmina de serrar o silêncio, eles mudaram, saudade definitivamente não cabe em três minutos, quem passa os dedos nas pálpebras dos seus medos?, amor talvez, você guardou o caderno vermelho?, na minha mão o fio lilás, você leu?, na extremidade do fio, isso importa?, uma ponta de vazio. 

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[eternuridade, s.f. (do latim aeternitate por aglutinação com do latim ternu). Qualidade efêmera do que é terno.|| O que há de eterno no transitório.|| Afeto muito longo; tristeza suave e demorada]