De amor, de amor nosso, e de amor incurável
27/ 9/ 2009
“Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém, o primeiro rendido é o entendimento. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se ajuntam.
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se for amor. São afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.
O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar. O amor, com a da terra. É o amor como a Lua, que em havendo Terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.
Os olhos são as frestas do coração, por onde respira; e daqui vem, que o coração, na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora e exala os afetos; porém, na ausência, em que os tem tapados pela distância, que lhe sucede Assim como o vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar, concebe maior calor, e o reconcentra todo em si e talvez rebenta, assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio, recolhe dentro em si toda a força e ímpeto do amor, o qual cresce naturalmente, e se acende e adelgaça, de sorte que, não cabendo no mesmo coração, rebenta em maiores e mais extraordinários efeitos.
A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo pois a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este terceiro remédio seria também o último e o mais presente e eficaz? A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor - o tempo, esfriar o amor – a ausência, é sem-razão de que todos se queixam. Mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa, que privar do amor a um ingrato?
O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?
É, pois, o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar, o melhorar do objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim, no mesmo coração, não podem caber dois amores. Porque o amor que não é intenso, não é amor. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto.
É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades.
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. Comumente, se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz, é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem, e resplandecem mais. Mas, em aparecendo o Sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.”
[Pe. Antônio Vieira]
:)
No meu caso é paixão:
26/ 8/ 2009
Coisas lindas:
6/ 8/ 2009
Old Fools, The Magnetic Fields, minha pequena obsessão de sempre :)
Pássaros Achados
4/ 8/ 2009
Vocês estão convidados a integrar o blog coletivo “Pássaros Achados” (http://passarosachados.blogspot.com/), recém-criado para o terrorismo poético – na vida e no texto.
“Não acho que a poesia seja uma coisa organizada. Ela é caótica. É o joelho ralado e o cabelo despenteado, o vestido rasgando-se na barra. A poesia tem sal. Ela é viva, quente e estranha. É tudo que temos para evitar que despenquemos pelo mundo como uma pedra caindo. É nossa cor e nossa luz, é o lugar em que nós nos derramamos. O lugar em que afinamos alguns pássaros, certos tipos de chuva, as ondas do mar, o choro escondido. A poesia é esse lugar perigoso.
Este blog é para nós, pela resistência poética.”
:)
Travessia
1/ 8/ 2009
Minha avó conta: ela mora tão longe! Todos os dias, a Cida atravessa chão de terra, pega a condução, desce na Amazonas, pega outra, vai fazer faxina, leva roupa para lavar, vende roscas. A Cida atravessa a cidade, depois pega o ônibus, desce na Santos Dumont, pega outro, atravessa o chão de terra, chega em casa. A Cida chega, atravessa a rua, faz a janta, come sozinha, talvez ligue a TV, vai dormir depois da novela. Todos os dias, a Cida atravessa a casa, a estrada, a cidade, a rua, só para depois, todos os dias, poder sentar na cama, acariciar a coberta. Todos os dias, a Cida arruma o quarto do filho que morreu. Tão longe como, vó? Todos os dias, ela atravessa uma escuridão.
Veneno
11/ 7/ 2009
“- Tens medo de fazer amor comigo? / – Tenho – respondeu ele. / – Por eu ser preta? / – Tu não és preta. / – Aqui, sou. / – Não, não é por seres preta que eu tenho medo. / – Tens medo que eu esteja doente… / – Sei prevenir-me. / – É porquê, então?/
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.”
[Mia Couto. "Venenos de Deus, remédios do Diabo." Roubado do Vitor]
:)
Pelo caminho
6/ 7/ 2009


Vai-te de mim
1/ 5/ 2009
[Show da Fabiana Cozza - Eu fui! :P ]
Amor e ponto.
20/ 4/ 2009
“Houve um tempo em que as certezas fugiam dele – elas conseguiam, ao contrário de mim. Foi um tempo nebuloso em que às vezes chovia, às vezes fazia sol. Mas, independente do clima, a gente se encontrava. Atravessávamos noites e noites lado a lado, acordando mais juntos ou não. Eu me lembro de muitas em que ele adormecia antes de mim. Abraçada ao seu corpo, eu dizia para o silêncio: “Amor”. Era solitário. Ficávamos eu e o que não cabia em mim, procurando um lugar que pudesse nos abrigar. Dias e noites se repetiram e o amor se manifestava, seguidas vezes, do coração para a boca, sem enfrentar grandes distâncias. Era um segredo meu comigo. Até um dia em que fechei os olhos antes dele. “Amor.” – ouvi num susto. Finalmente ele havia parado de lutar. Não mais se debatia. Num sorriso, se entregava ao que era feliz. Eu chorava. Era alegria demais. Algum tempo depois, já era corriqueiro. Mais algum tempo, você. Que antes era só um outro desejo escondido – também nele. O verbo se fez carne, como ele mesmo disse um dia. (Ainda bem que deu tempo.) A palavra amor seguida de um ponto final é para poucas pessoas e poucos momentos. Para poucos porque é muito.”
[Texto da Cris Guerra Para Francisco - porque a Cris tem essa pressa linda de escrever para o filho (o Francisco) sobre o pai que ele perdeu antes mesmo de nascer]
Para que alguém ouça:
28/ 7/ 2008
“Nós éramos 15 mulheres aprisionadas num hotel. Eles nos estupravam seguidamente, todos os dias, várias vezes por dia. Quando alguma de nós gritava, um daqueles soldados dizia: ‘Ah, você está gritando. Agora eu vou te dar motivo para gritar.’ O soldado então pegava uma faca afiada, fazia pequenos cortes em diversas partes do corpo dessa mulher, colocava sal e depois fechava o corte com agulha e linha de costura. A minha melhor amiga morreu depois de sangrar lentamente durante muito tempo…”
(Recordações da personagem Hanna no filme “A Vida Secreta das Palavras”, baseado em fatos reais. Os soldados a que ela se refere eram sérvios, agiam sob a complacência de Radovan Karadzic, preso na semana passada)
