{rastros}

18/ 11/ 2010

[Tela de Christopher Brennan, “Sun on an Empty Chair”]

Tire de mim esta fotografia, só com os olhos, a memória, e as mãos segurando o vazio. Tire-a de mim. Esta fotografia em que meus olhos não me levam, aqui onde sou eu que carrego meus olhos, como lagos onde a água jamais é trocada: é uma água intacta. Derrame o mar em meus olhos. Misture o salgado no doce. Quero uma fotografia exatamente assim: dois lagos, o mar escorrendo por cima, e um sol lá longe. E nela sou eu quem carrega os lagos. Como um fardo. Como um marinheiro que luta contra a fúria das ondas, e a elas sobrepõe o seu grito, porque mais alta que o alto-mar é a sua raiva, e o seu choro, e contra o mar ele fecha as escotilhas, e parte as ondas como quem quebra um espelho.

Tire de mim esta fotografia como um espelho, com os olhos partindo-me: eu carregando dois lagos que você despedaça com os olhos, a memória, e as mãos de onde pende o vazio, e então esse vidro em pedaços me escorre pelo rosto, e no meu rosto o sol se quebra sobre os vidros, e esse colorido que você vê agora na fotografia (não se engane) é apenas um fenômeno óptico. E nada disso se percebe na menina da foto.

Porque na foto não há ninguém. É você quem a desenha com luz e contraste. Você tira com os olhos uma fotografia que vai se embaçar na sua memória. Até virar uma fotografia inventada. Até você não se lembrar mais se havia mesmo uma janela, se estava aberta, se a cadeira estava no centro, se alguém sorria, ou se a menina já tinha ido embora. Se você estava alegre.

Eu quero uma fotografia assim: inventada. Para se esquecer. Ou desenhar por cima. Desenhar sobre a cadeira vazia uma menina que já não está. E derramar no seu rosto um riso. Pintar um mar nos olhos, deixar a tinta escorrer, formar um sulco. Até você não saber mais se era uma velha ou uma menina. Veja bem: a sala está vazia, eu não estou aqui, e o colorido é pura refração. E você não está segurando uma máquina fotográfica.

Mas repare: mesmo inventada, na fotografia nossos corpos colidem, e repartimos o vidro dos meus olhos, e bem perto escutamos o barulho da arrebentação. Veja bem: estamos cercados de prédios, e atrás dos prédios montanhas, e depois céu. E o céu está sujo. E o colorido é o mar que derramei sobre a fotografia, e esse mar já secou, e você só tem essa lembrança esgarçada da cor que havia. E o vidro que rasga os seus olhos é invisível.

Mesmo assim, você tira de mim essa fotografia, e tira-me exatamente agora, sem piscar. Aqui há apenas uma cadeira vazia, eu já me ergui da cadeira, já abri a porta, a porta fechou-se atrás de mim, e a cadeira ficou do outro lado de nós, e pela porta entrou uma velha muito parecida comigo. Mas veja só, atrás das lentes, há alguma coisa invisível para as pessoas que são fora de nós, e que não estiveram naquele quarto, e que nunca poderão ver a fotografia que você nunca tirou. Repare bem, está ali, registrado e intacto: nós enchemos o quarto de alto-mar.

* Fotografia: φως [fós] (“luz”), e γραφις [grafis] (“pincel”). Desenhar com luz e contraste.

** Texto-espelho inspirado pelo poema “Encomenda” da Cecília Meireles:

“Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.”

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