{ardor}

10/ 11/ 2010

Hoje não quero palavras, nem metáforas: quero cores vivas. Saio na chuva, para que a água se afogue violenta, e que o faça fundo no leito do meu rosto. Para que me toque com sua brutalidade de chuva sobre chão de terra. Toque-me, tempestade, porque há tanto tempo não nos tocam os cabelos, os rostos, os corpos. Há tanto não nos tocam. Não com o violento arder das cores vivas. Então, hoje, para a chuva, faço-me aquarelável, e cubro a rua de vermelhos. A tempestade a derrama em mim, e a rua escorre junto comigo. Embaraçamo-nos, escarlates. Para que nos abracem com água, e com céu, e sol. Para que nos embacem, como um beijo quente sobre a vidraça. Como o vapor do que ferve, e queima as mãos na panela. E deixa cicatriz, feito o talho de um abraço sobre o peito. Um abraço de verdade. Então, para não afogar é que pinto com os dedos, e afundo-me os dedos, com as mãos na tela do peito, para me arrancar da tela, para ser fora dela, para existir, para me lembrar que estou e quero, quero com ardor todas as cores que me ardem, as cores vivas, para que eu me lembre como se toca e abraça, mesmo que seja um abraço de chuva: agora eu me lembro, porque em mim afoguei minhas mãos. Porque em mim a tinta é mais quente, e quando ela escorre é por dentro, em profusão. Vermelha.

{ Aqui: http://julianabrina.tumblr.com/ }

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