Cartas possíveis
6/ 6/ 2010
Essa mulher não pedirá nada. Ela vai sair à rua, o rosto ao vento, e de chuva cobrirá esse rosto, para esconder. Vai ajudar um homem cego a subir no ônibus, e o fará com um gesto simples, mas o homem cego estará tão só, e choverá tanto, e o gesto será tão simples, que será com esse coração tão desamparado e tão só, que é seu único bem nessa noite e nessa chuva, que o homem cego vai dizer à mulher, essa mulher que chora em silêncio, escondida pela chuva: “Deus te abençoe” , e ele vai dizer sem saber sequer dessas lágrimas, porque o homem cego não tocou o rosto da mulher que chora, mas se tivesse tocado ele saberia, e apenas ele, cego, entre todos os outros seria o único a saber separar, da água doce que o céu derrama, o rio de sal que escorre dessa mulher. Deus te abençoe, ela repetirá para si, muda, e essa mulher, por muito tempo ainda, ou talvez apenas nessa noite, essa mulher usará isso como um amuleto, como faz quando vê um pássaro, ouve uma música num apartamento, uma música antiga, ou uma música que alguém esqueceu, ou quando vê o céu de repente, ou com a bênção de um cego. Essa mulher vai se agarrar a esses amuletos. Ela vai descer no ponto errado, porque está tão escuro aqui, e vai caminhar na chuva e no vento, e vai chegar numa praça e a praça estará cheia. E haverá música nessa praça. Apesar da chuva e do escuro e do vento, haverá gente e música. E o coração da mulher que chora ficará pequeno, mas tão pequeno, e ela vai pensar como é simples a alegria dessa gente, e como é frágil. E de repente um desconhecido vai começar a conversar com ela, e ela será obrigada a se desdobrar ao mesmo tempo em três, e absolutamente desgarradas: a mulher que ouve a música, a que responde às perguntas e a mulher com o coração apertado, e todas as três serão de repente apenas essa mulher que chora, e chora invisível. Nessa mulher o coração bate na pele, à superfície, e o riso é solto e forte e faz tremer o corpo, e o chão, e é riso feito de céu e de desespero, e de um vento dentro, porque é sempre mais forte e violento o riso que ninguém sabe, mas que é um riso que crava os dentes na dor feito bicho em sua presa, essa dor que é um cavalo selvagem que a mulher tem que segurar pela rédea, sem ninguém ver. Algumas vezes, a mulher terá vontade de soltar a rédea, mas serão poucas, então vai se trancar em banheiros públicos, as duas mãos na boca, uma sobre a outra, para segurar a dor do lado de dentro, apenas o sal derramando-se, em silêncio e imóvel. Na maior parte do tempo, porém, ela vai simplesmente rir o seu riso forte e fundo e ninguém vai ver, e nem poderia, e será sempre incomunicável, porque a mulher que chora sabe que toda tristeza, ah, é uma língua estrangeira. Essa mulher que escreve sempre na terceira pessoa, e escreve coisas que as pessoas acham bonito, e acham sem entender. E, no entanto, ela usa palavras tão simples: chuva, vento, música, riso. Por isso, nessa noite, com palavras simples, ela responderá às perguntas do desconhecido, e vai se misturar às perguntas, e depois à música, e depois às pessoas na praça, para sumir. Como o choro sumindo em toda água doce que é do céu que vem, caindo, essa mulher vai conseguir se misturar e sumir. E ninguém saberá, no ônibus, quando ela agarrar forte uma mão na outra, debaixo da bolsa, morder o lábio e virar o rosto para a janela, onde haverá, talvez, atrás de um véu de água e de sal, sem ninguém nem ver, e escondido, o céu um pouco.
deus te abençoe…
Absolutamente lindo, Juliana. Dom de escrever sabendo por demais pontuar! Parabéns