Uísque

14/ 10/ 2009

[poema-espelho de um poema do Everton:
"Que tipo de nome
Se dá a essa coisa
Urgente
Sob a carne
Como quem arranha a porta
Como alguém
Que simplesmente não pode
Um bicho que corre
Em todas as direções"
;)]

Você bebe do meu copo
partido, amor
o que o mar juntou no fundo, você bebe rindo
com os lábios rasgados e me deixa um rastro
vermelho
no corpo, você bebe
e bate, bate, agarra-me os cabelos, me arranca
um gemido um grito cada tremor cada um e sem me despir
e sem se despir
me entra em pé e durante e depois, me bate
mais e mais e novamente e diz
você é minha tristeza, amor
e eu rio
e você mar,
seus dentes fincados
âncora
no meu ombro, no peito, e embaixo,
e me bate, batemo-nos como os cascos
dos navios,
como navios aprendemos, com o mar
como o mar, colocamos os corpos
em perigo.

Você me bebe
rindo,
e partido, e me agarra, enfia, arranca, morde, cospe,
e bate, vai
bate com as costas
das mãos
forte
me salga, me trespassa
bate, amor
com a fúria das bestas
como quem castiga um cavalo
rebelde.

Eu bebo da sua garrafa mesmo
sem copo, é assim que nos comunicamos
é pelo corpo
não, sim, está frio, o tempo está bom, obrigado
como crianças que não sabem falar
bate
forte
vai
é assim, como dois soldados feridos depois da guerra
me agarra, enfia, mete, arranca, engole,
como cavalos,
e mais e mais e novamente, e embaixo, e atrás,
sangue e água e sal correm de nós, maré que enche, vaza, escorre
lágrima por lágrima, nós lavamos
com álcool
a solidão
entre nós.

Sem copo,

nós a bebemos sem copo, da garrafa mesmo, com o corpo
amassado das pegadas, partidos, com álcool
e orgasmos, arrancados de nós com um rugido
de mar
na tempestade
em fúria, o rugido de alguém ferido por uma rajada
de tiros.

E eu rio
e você mar, e não deixamos nada de nós?
os dois
no fundo, no corpo, na foz, no mar
que atravessamos
com dor,
com o galope molhado
dos animais.

“Aprendo mais com abelhas do que com aeroplanos. É um olhar para baixo que eu nasci tendo. O ser que na sociedade é chutado como uma barata cresce de importância para o meu olho. Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo. Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão antes que das coisas celestiais. Pessoas pertencidas de abandono me comovem: tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.”

 

[Manoel de Barros]