Lenha

15/ 6/ 2009

Eu precisei usar o corpo inteiro. Foi pesado e físico e me deixou exausta, até doerem-me pernas e braços e rebentar-me o corpo de dor violenta e nova.  Durante um tempo, eles se deram as mãos e permaneceram dolorosamente ligados. Comeram do pão temperado de tristeza. Ficaram calados. Dormiram exaustos, com suas cabeças se tocando, como cães. Jamais serei tão jovem novamente com outra pessoa. Agora tenho um lugar, em alguma parte da terra, ao qual não posso nunca mais voltar. Por isso, precisei usar o corpo inteiro, e muitas vezes, e sem piedade, e com estranhos, até rebentar. Algo foi para sempre esmagado e algo tornou-se para sempre vivo. É na pele que conservo, por baixo, protegido contra todos, um resto do calor do dia, iluminando por dentro. Às vezes, eu me deixo ficar nesse lugar estreito e quente e presto muita atenção: ali, quieta, estou tão jovem, tão em silêncio. Não há gritos. Nada foi esmagado ainda. O que a pele conserva não foi sequer tocado. Nesse lugar estreito e quente, estou no meio do meu amor. E parece ser tão cedo.