Véu

23/ 5/ 2009

Foi o acaso que me deu o nome que tenho. Uma menina passou correndo na praça, esbarrou em minha mãe, alguém gritou atrás: Juliana! Essa menina é meu ingresso doloroso na alegria. Ela me esbarra direto no peito, violenta, quente, com dor: nós nos enfrentamos. É pela carne que Juliana me invade, bate portas e janelas, rebenta-me os vidros. Depois senta-se, estende-me as mãos. Minha dor, me dá a mão. Juliana é maré irrefreada e sem ondas, subindo obstinada e lenta, de um jeito calmo e mau. Com dor, toda água escorre de mim e escorre para a alegria, esse caminho escuro.

Às vezes, quero esquecer Juliana, a menina correndo numa praça. Não a chamem, não gritem mais esse nome. Espero que a vegetação em torno cresça depressa, depressa, com dor, até que me trinquem os ossos, como um destino. Até que me invada o jardim de que preciso. Um jardim enorme. Então, sigo por ele, há uma porta no meio, entro e digo: quero flores. Juliana sai comigo, mostra o jardim enorme e diz: quais? Eu escolho: essas vermelhas. É um caminho calmo e mau. Dentro, as flores vão sendo arrancadas uma a uma – com as mãos. Essas com os espinhos. Não desvio o olhar, nem afasto o rosto. Quero todas. Por alegria, como um destino, escorre de mim, com dor, a menina correndo na praça: estátua derrubada de mim. Não a chamem. Nós nos enfrentamos, pela carne, no sol inclemente, cegas. Nos meus olhos, Juliana se quebra, como a onda sobre uma pedra ou o caule na palma da mão. Me dá a mão, minha dor. É quente e violento e direto no peito. Não afasto meu rosto. Vejo meu sangue escorrer calmo e mau, como se fosse o sangue doente de um inimigo.

2 Respostas para “Véu”

  1. eduardo disse

    paralelos arbitrários.
    “No corpo a inscrição do nome
    A faca a atravessar a carne (…)”.

    http://tempestadeemceuazul.blogspot.com/2009/05/regozijo.html

  2. ebehenck disse

    te ler é sempre uma suspensão…

    bj!

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