Amor e ponto.
20/ 4/ 2009
“Houve um tempo em que as certezas fugiam dele – elas conseguiam, ao contrário de mim. Foi um tempo nebuloso em que às vezes chovia, às vezes fazia sol. Mas, independente do clima, a gente se encontrava. Atravessávamos noites e noites lado a lado, acordando mais juntos ou não. Eu me lembro de muitas em que ele adormecia antes de mim. Abraçada ao seu corpo, eu dizia para o silêncio: “Amor”. Era solitário. Ficávamos eu e o que não cabia em mim, procurando um lugar que pudesse nos abrigar. Dias e noites se repetiram e o amor se manifestava, seguidas vezes, do coração para a boca, sem enfrentar grandes distâncias. Era um segredo meu comigo. Até um dia em que fechei os olhos antes dele. “Amor.” – ouvi num susto. Finalmente ele havia parado de lutar. Não mais se debatia. Num sorriso, se entregava ao que era feliz. Eu chorava. Era alegria demais. Algum tempo depois, já era corriqueiro. Mais algum tempo, você. Que antes era só um outro desejo escondido – também nele. O verbo se fez carne, como ele mesmo disse um dia. (Ainda bem que deu tempo.) A palavra amor seguida de um ponto final é para poucas pessoas e poucos momentos. Para poucos porque é muito.”
[Texto da Cris Guerra Para Francisco - porque a Cris tem essa pressa linda de escrever para o filho (o Francisco) sobre o pai que ele perdeu antes mesmo de nascer]
Meu destino é ser onça
8/ 4/ 2009
“É vista quando há vento e grande vaga/ Ela faz o ninho no rolar da fúria / E voa firme e certa como bala / As suas asas empresta à tempestade / Quando leões do mar rugem nas grutas / Sobre os abismos passa e vai em frente / Ela não busca a rocha, o cabo, o cais / Mas faz da insegurança sua força / E do risco de morrer, seu alimento /Por isso me parece imagem justa / Para quem vive e canta
no mau tempo.”
:)
[Sophia de Mello Breyner]