Dois náufragos
7/ 1/ 2009
O mar não me quis. Quem vai para o fundo, eu corri para o fundo, tem é que apertar o passo, contra as ondas. O mar abraçou, fez um redemoinho, tem é que agitar o braço, meus pés escaparam, para o fundo. Chovia fino, estava quente a água, sem peixes dentro, sem o céu, de noite, sem chão, só uma coisa agora partindo dentro. Foi tão lento, a água me cobrindo como um vidro, tapando os sons das pessoas fora, mas dentro prendendo o grito, depois a água me alçando, como se dançasse, meu vestido vermelho espalhando-se, depois a água cobrindo-me de novo, violenta e calma,
com sal. Depois não lembro. O mar não me quis, só aos pedaços. Depois me devolveu. Juntou um punhado de gente em volta, na areia, depois me carregaram no colo, não lembro, um desconhecido, alguém. Estava escuro, borrado e quente. Depois me colocou num carro, eu metade dormindo, metade acordada, a outra metade no mar, no corpo um peso como se de febre. Depois parou o carro e eu só me lembro, eu me lembro do peso, eu embaixo, como uma pedra na água e contra a pedra as ondas batendo forte, bantendo, bantendo, mais forte, mais, e alguma coisa partindo-se, e de repente o cheiro quente de sal, de sal, de sal, alguém me cobrindo de sal, e de rosas velhas, maceradas, não sei por que pensei em rosas velhas vermelhas ali naquele meio de nada, despedaçadas. Meu corpo a metade no mar, a outra pesava, eu ali nem tinha nada, só um grito dentro, uma coisa presa, por fora o silêncio, alguma coisa que se parte e se cala e as ondas bantendo entrando inundando tudo, a água salgada subindo, entrou nos olhos, na boca, embaixo, e o sal riscando, e o sal, o sal, o sal,
chegou ao coração. O mar não me quis. Chegou ao coração, envelheceu as rosas, o vermelho todo se esvaiu, onda quando recua. Apagou os rastros, era só um desconhecido, alguém que passava, vindo talvez do outro lado, o do fogo silencioso na areia. Me mostrou as queimaduras na mão, no dorso, depois pediu desculpas, não perguntei seu nome. O vestido vermelho ficou rasgado do lado, um brinco caiu, talvez no banco do carro, lá dentro alguém sem nome, uma imagem borrada, despojos. Se passar por mim, não o reconhecerei. E eu quis tanto e como e forte
que o mar me buscasse. Mas o mar não me quis e eu não perguntei, eu segui para fora, à deriva, para longe, sem olhar, para o fundo, correndo, eu segui contra as ondas, para o barulho das pessoas rindo passando. Para a chuva fina. Quem se salvou dirá alguém, em algum lugar, num instante lento que ninguém ninguém ninguém viu, alguém
parou de respirar.