Saudade:
22/ 8/ 2008
o que toca errado e doce,
coração:
piano fechado
dentro, as músicas.
Herança
5/ 8/ 2008
Herança que meu pai me deixa, contando histórias: em Simonésia, o pai que viajou, o filho adoeceu, todos pelejando para avisar, telefone só tinha na venda. Seu Júlio médico sentenciou: Quando a noite esfriar, o menino morre. Todos acenderam fogo, gente no corredor carregando bacias com álcool, compressa e vela acesa para São Cosme e Damião. No quarto do menino, meu pai menino perguntava:Como é que a doença sabe que já é noite fria? E corria a buscar fogo, cobertor. Teve até reza, sala cheia e Dona Ceça benzedeira. À noite, bisavó Miquita veio na cozinha, pegou meu pai pela mão, abraçou, e o menino morreu. Meu pai ainda se lembra do fogo: é a imagem mais linda do amor de mãe, a mãe no frio, segurando o pé machucado do menino já morto. Diz que ela teve um jeito de chorar de olho fechado, imóvel. Só as brasas no fogão a lenha vermelho. Eu sempre tenho esse aperto no peito, herança que me acompanha. Sempre peço a meu pai essa lembrança nele: a luz exata, o fogão vermelho aceso, gente falando tão baixo, o que sobrou, teve que reza, pai? Nessa hora é que eu busco o fogo.