Nós éramos 15 mulheres aprisionadas num hotel. Eles nos estupravam seguidamente, todos os dias, várias vezes por dia. Quando alguma de nós gritava, um daqueles soldados dizia: ‘Ah, você está gritando. Agora eu vou te dar motivo para gritar.’ O soldado então pegava uma faca afiada, fazia pequenos cortes em diversas partes do corpo dessa mulher, colocava sal e depois fechava o corte com agulha e linha de costura. A minha melhor amiga morreu depois de sangrar lentamente durante muito tempo…”

(Recordações da personagem Hanna no filme “A Vida Secreta das Palavras”, baseado em fatos reais. Os soldados a que ela se refere eram sérvios, agiam sob a complacência de Radovan Karadzic, preso na semana passada)

Sobre lobos

19/ 7/ 2008

Podia ter sido um grito. Ela enchendo os olhos, juntando as mãos com força, para pedir: Pai, me ajuda a não perder. Podia ser um grito: não perder meu coração. A veia de sangue arrebentada na boca: Pai, e ela de punhos fechados, misturando o sangue no doce da saliva, a língua presa nos dentes: Pai, meu coração. Ela de olhos cheios, limpando os dentes com a unha, solta as unhas do meu coração, Pai. A boca cheia de sangue, o coração dentro. Podia ter sido um bicho urrando, mostrando os dentes: É perigoso? Um coração com flechas, o gosto de mar na boca, e ela juntando as mãos: Pai, meu Pai. E apenas sal na veia aberta. Mar desesperado, com um barco pequeno no meio, meu Pai. Um fio torto, a boca costurada, as mãos juntas. Solta as unhas, Pai. E alguém puxando devagar o fio vermelho, até desatar. A veia de sangue arrebentada, enchendo a boca. Podia ter sido um sopro: Pai. Feito o sangue que escorre, desenganado, e seca, mancha, esgota tudo o que pulsa, e de repente volta. Sem explicação. Volta. Feito todo o leite que corre. Meu coração, volta. E volta desse lugar escuro. Solta, Pai. Ela vem trazendo uma coisa do escuro, de sangue e suja, feito filhote ainda agora nascido. Vem lambendo a cria, depois crava os dentes. Podia ter sido um bicho ganindo: Meu coração, solta. A boca sangrando, a presa nos dentes, vencida. O coração na boca, ela volta. Agradecida.

Paixão: s.f. [Do latim, passio, pateo: "abrir-se, estar aberto". Do coração da gente, pátria.]

Animal vivo (em geral, dragões). O que, por fora, é morena rosa. De dentro, é só um mar muito alto. E sal. Coisa de fazer arder os olhos. Sagitário, ascendente em Áries, lua em Aquário. Jeito de deixar intenso o corpo. Os olhos: fogueira quando voa. Fugimento. Exercício de acender por coisas mínimas. O corpo quando é assim desacalmado (vela queimando pelos dois lados). Colisão de afeto.