As crianças e as canções
22/ 6/ 2008
Eles se olham. Eles, os que sequer se tocam e pouco falam. Eu já vi cada um deles doer à sua maneira. Eles se olham fortemente. Como se seus olhos cantassem.
Para dentro. Há uma canção que é de água derramando. Do outro lado da linha, de quem segura a dor até eu dizer “então volta, Laura.” E começa a chorar baixo, longe, ao lado, sem eu poder dar a mão, os olhos. É que as pessoas sempre me salvam.
Com os olhos. Há sempre essa canção, essa com silêncio dentro. Mas se todos os olhos assim dentro têm doce – de onde é que escorre o sal? Também eu não sei viver sem dúvidas, Daniel. Sem o que sempre escorre.
Aos gritos. Há outra canção, a de crianças correndo num pátio. De quem eu vi pequeno, de uniforme verde, e que me pegava a mão para correr no recreio. Aos gritos, de quem também correndo deixou família e casa e que já rasgaram de dor, e que nem cabe mais no uniforme verde, esse Pedro que hoje cuida de gente numa cidadezinha de chão, de terra e igreja e só e me responde: “É a forma como as pessoas são”. Repletas de dúvidas, mas fazendo coisas espetaculares.
Num piscar. Há também uma canção trancada, que para dentro é linda. Linda e triste. Mas para fora nem existe. Há essa canção, chorando do outro lado. Desse lado rindo forte, rasgando-se. Depois com os olhos, costurando os rasgos. Ou tentando agarrar-se, num piscar. Eu não sei bem, Saulo, quando é que eles deixaram de correr no recreio e começaram a se pedir as mãos – só para agüentar. Eu penso tanto neles. Esses, para os quais eu só tenho meus olhos.
Para dar. Há, enfim, uma canção de tambor em disparada. No peito, Maria Helena, feito esse calado esperar. Esse esperar qualquer, essa coisa mínima imaterial que é: um jeito de olhar doce. Ou só a lembrança de um jeito, uma coisa qualquer e longe.
E forte. Eles se olham fortemente. Feito um punhado de canções entrelaçando os fios. Uma começa onde a outra termina, em ciranda, só para a próxima começar. Eu penso em canções de ninar, para esse punhado de pessoas que só têm seus olhos. E se viram disparar num pátio, ou dançar em roda, ou só cantar alto, esses que tinham sonhos pequenos. Esses que se viram tropeçar de leve ou esquecer os passos, perder o ritmo e estacar e voltar-se com susto e depois esconder as mãos por vergonha do vazio. Esses que então se olharam.
Com música. A solidão é um pátio tão vasto, e eles o atravessam assim mesmo, ninando-se com os olhos. Laura, Pedro, Saulo, Maria, Daniel e tantos. Esses, os que apenas se olham.