Um resto
20/ 5/ 2008
Pode ser depois de uma longa espera. Pode ser na rua, de tarde, depressa, atrasada para colocar uma carta no correio, ou comprar flores, ou pão, pode ser quando você desiste de enviar a carta, ou crisântemos, pode ser que você de repente prefira gérberas, pode ser depois, bem depois, quando você já não espera. Pode ser que você leve consigo uma carta que nunca será lida. Pode ser que você rasgue. Pode acontecer devagar, enquanto alguém se afasta do outro lado da rua, a céu aberto, com vento e folhas e gente. Com dor. Pode ser assim ao redor, ou dentro do quarto, com a porta, a janela, os olhos fechados forte. Pode ser quando alguém te toca o rosto e chove e te doem os olhos. É imprevisível. Você nunca sabe como ocorrerá.
Mas pode ser que alguém te segure as mãos. Pode acontecer de repente, quando alguém chega e traz vinho, tabaco, vergonha, coisas antigas, esquecidas, músicas que ouvimos antes, músicas em algum lugar da casa. Pode ser um lugar em que você cantava, um jeito de dançar, alguma coisa no corpo. É imprevisível. Mas pode ser que alguém te esbarre.
Ou te toque firme. Pode ser que você deixe. Que nem se importe. Que esteja triste, ou simples, ou fatigada. Pode ser que alguém então te rasgue, e seja devagar, ou terno, ou violento. Pode haver várias camadas que alguém rasgue, feito uma carta, ou uma flor num galho, um pedaço de pão repartido. Pode ser que alguém aceite com gratidão esse resto. Ou pode ser só derrisão, alguém rasgando camadas e camadas de terra e gérberas e pão e água e cartas e vergonha, e depois as das coisas mais ternas, as de tentar alegria, as de sorrir forçado, e por fim as camadas mais fundas, as de nem tentar. Pode ser com o céu vermelho. Pode ser que você traga os olhos cheios. É imprevisível.
Mas é sempre debaixo e sujo, é de terra e de repente, feito uma luz desatando-se, um peixe de mar alto que alguém vai puxando firme, uma dor muito enterrada, um resto. Pode ser com os pés molhados, ou em um barco frágil. Pode acontecer com os passos duros, sujos das flores, das cartas, dos beijos, das coisas jogadas, perdidas nos degraus. Mas é sempre água escorrendo com violência, gente que chora calada, que engole, que não olha, sai levando uma carta, coisa limpa, que escorre, que depois apaga devagar os traços. No chão, feito onda quando cobre e recua e devolve o brilho, os despojos, a luz, a dor mais dura.
Pode ser. Pode ser essa coisa pura.
O coração real
6/ 5/ 2008
«Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da un raggio di sole:
Ed è subito sera.»
[Salvatore Quasimodo]
Todos estão sós no coração da terra,
Atravessados por um raio de sol:
E de repente é noite.
[Tradução livre]
A moça que vende rosas
1/ 5/ 2008
fala com o menino: Cala a boca, não mexe com a moça, toma o biscoito, come para enganar a fome. E o menino chora. A moça que vende flores me olha e não fala, passa a mão no cabelo, empurra o menino, olha de novo, depois esconde os olhos, pega uma rosa no cesto, os olhos de viver assim, enganando a vida
com migalhas: Bom dia,
e me estende a rosa. Sem olhar. Há um intervalo entre isso e a resposta. Eu compro barato essa rosa: o bom dia que é só uma aposta.
Um blefe.