Dicionário mágico

24/ 4/ 2008

Desejo:
[Do latim vulgar: desidiu. Do querer da gente: des- + eixo]

A gente vive melhor quando o coração está em casa – e quando essa casa tem um bom fogo. Mas o desejo não é o que queima, nem cintila. É o que vem antes, o desejo é esse espaço quente e branco entre a chama e a vela. Esse quase. Desejo é um jeito só de dentro e corre cego e solto e nunca chega. É coisa do corpo, coisa qualquer que se desprende.

Feito entrelinha quando se demora na gente. A boca costurada por um riso torto e que alguém vai puxando, puxando, até desbordar uma palavra gasta, sofrida, cheia de pó, de céu, de amor, de gérberas, de suor e medo. Uma palavra muito cheia de medo, mas forte, desatada, um fio de riso vermelho que alguém vai puxando, puxando, e depois solta. Desejo é o que se solta, coisa de fazer rasgo e brilho.

Mas é sempre o antes, o que há entre e quase e é quente e branco e então, só então escorre. Deixa um resto de luz que não queima, nem cintila, nem nunca chega, mas é luz que fica.

Por sorte

9/ 4/ 2008

[Daqui ó]

:)