Rostos

21/ 3/ 2008

Pedro veste o nariz de palhaço e conta histórias para crianças no setor de queimados do hospital. Outro dia, me puxou pelo braço, me vestiu um avental colorido e saímos carregando um saco de ovos de páscoa. Bastou que eu entrasse, porém, para que o fio esgarçado de histórias que eu levava me escapulisse das mãos. Apenas sentei-me num canto, escondendo choro por detrás do meu nariz de palhaço. O Pedro não, o Pedro é mais forte, segura firme o fio de dor e vai tecendo histórias de riso. De fazer brilhar os olhos. De se misturar na brutalidade daqueles rostos, soltando devagar os pontos. Rosto é assim, tem que contar a história de como foi feito, trazer, nos olhos ou no riso, cinco ou seis linhas que foram testadas antes que uma fosse escolhida, mostrar que havia outras camadas, outras possibilidades, deixar espaço para que alguém o complete. Rosto é assim, de se desfazer. Tem que mostrar e esconder, deixar só uma fresta estreita ou abrir-se num repente, feito vento e tempestade e janelas batendo forte. Ao final, um menino de uns 10 anos, o rosto coberto por bandagens, puxou o Pedro pelo avental e falou baixinho: “Não parece, mas estou até rindo.” Rosto é assim, de se tentar.

Amor vem de amor. Vem de longe, vem no escuro, brota que nem mato que dispensa cuidado e cresce com a mais remota chuva. Vem de dentro e fundo e com urgência. Amor vem de amor. Que não cabe, mas assim mesmo a gente guarda. A gente empurra, dobra, faz força, deixa amassado num canto, no peito, no escuro, dentro, ou larga pegando sereno. Amor vem de amor. Vem do pedaço mais feio, do mais sem palavra, do triste, vem de mãos estendidas. É tecido desfeito pelo tempo, amarelecido pelo tempo, pelo cheiro da gaveta fechada, pelo riscado do sol na madeira. Amor vem de amor. Vem de coisa que arrebata, vira chão, terra, cisco, resto, rastro, coisa para sempre varrida. É delicadeza viva forte violenta. Que faz doer, partir, deixar caído. Amor vem de amor. E dói bonito.

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[Em itálico, Guimarães Rosa.]