Os clássicos

23/ 1/ 2008

Não li os clássicos. Prefiro gente, silêncio e o céu. Eu sou dispersa. Não sei mais do que um grão de terra, mas terra viva.  Nas pessoas, prefiro o imponderável. O que não se fala. O mais simples. O menor. Eu prefiro andar no escuro. Eu falo da amiga que me pega as mãos, abaixa os olhos e diz: “Ju, perdi minha mãe”. Eu falo desse instante, da luz entrando enviesada, do gesto, dos olhos que as palavras perdem. Eu não sei responder. Eu só aprendi a ler e a escrever. Eu falo da colega que está cansada, que cansou do corpo, da esperança, das palavras amenas, dos sorrisos forçados, essa colega que desistiu de brigar com a doença e me liga chorando e chora, chora, chora e não diz nada. Eu falo do amigo que ama sozinho e com delicadeza e escondido e com muita coragem. É com essa violência que eu falo. Eu falo do moço que me pede um trocado e se cala, me explicando que: “Se eu contar a minha vida, eu conto chorando”. Esse moço que ninguém olha e que me estende as mãos. Eu falo da amiga que não telefona por medo de importunar. E da irmã que se rasgava só para aguentar. Eu falo do amor que a gente leva. Feito o corpo, o que se carrega. Eu falo da mãe que me mostra a boneca da menina morta, eu falo dessa mãe que me diz: “Isso me vive”. É disso que eu falo. Eu sou dispersa. O que eu amo é sem motivo. É sem direção, desgovernado. Tem que ser. Eu não decoro nomes, não faço sala, nem farol, eu choro na rua mesmo, eu nunca nem sei responder. Eu apenas sinto, eu sinto junto, abaixo os olhos, eu silencio, eu dou as mãos, eu peço perdão. Eu não li os clássicos.

À borda

15/ 1/ 2008

É assim à borda que a gente endurece. A gente endurece é para aguentar a ternura. É para não deixar frestas. É para empurrar fundo a coisa mais pura, feito farpa. Feito o que se entranha. É para abrir um vergão. É para olhar forte. É sem perdão. É assim à borda, para não derramar. É brigar de verdade uma briga dura. A gente endurece é para engrossar a ternura.

Presente do mar

9/ 1/ 2008

Dona Lena eu conheci por acaso, passando pela casinha branca de porta azul onde se lê “Comida caseira”, e à frente o flamboyant florido imenso, flores vermelhas no chão. Dona Lena nos serve na panela mesmo, dizendo que gosta da cidade assim, turistas indo e vindo, barulho. Que no resto do ano não, “é só areia ventando na rua”, é Seu João sair para a pesca e ela pega o terço, fecha a porta e as janelas, “no resto do ano é silêncio só”. Dona Lena vai nos servindo, senta e levanta, abana o rosto, “que agora eu sou mesmo é do mar, do barulho, mas no resto do ano não, sou só de João mesmo”. Que Seu João, ela diz, “eu já conheci gostando”, foi ele dar as costas e sair para o mar e Dona Lena soube que gostava, que o mar às vezes devolve o que leva, e gostou forte porque soube que “a gente, os dois, é assim, de solidão igual.”