Dona Clélia
18/ 12/ 2007
Dona Clélia foi perdendo a memória aos poucos. Perdeu a memória dos cheiros, das vozes, dos rostos. Dona Clélia não se lembra de mim. Não se lembra de como eu, quando era pequena, ia visitá-la só para ver o relógio cuco bater seis horas, e para ouvi-la tocar “Olhos Negros” no piano, a mão envelhecida sobre as teclas brancas e negras, e ela dizendo para minha mãe: “essa menina tem uns olhos sem fundo”. Dona Clélia foi se perdendo aos poucos. Esqueceu-se das telas, das tintas, ela que sempre pintava uma casinha numa paisagem, “para espantar a solidão do quadro”. Dona Clélia esqueceu-se dos livros, as estantes repletas de livros e o relógio cuco que me encantavam, esqueceu-se das músicas que compôs, esqueceu o paninho de crochê pela metade e o piano fechado, pegando poeira.
Quando fomos visitá-la, passou todo o tempo pedindo desculpas baixinho. Colocou no colo o presente que lhe demos, o corpo magro encolhido na cadeira, os pés muito juntinhos. Ficou olhando o pacote. “Abre o presente, Dona Clélia!” Olhou para mim, olhou para o pacote, começou a desembrulhá-lo devagar. Parou, a cabeça baixa, branquinha, os olhos brilhando: “Posso?”, e, por um instante, eu pensei vê-la escapando de seu pequeno aquário, subindo à tona, vinda do mais profundo e branco esquecimento, alçada pelo fio forte da lembrança do afeto. Eu pensei “isso, venha para o sol, Dona Clélia, para o seco, o quente, o de todas as cores”. Foi só um segundo. Dona Clélia esqueceu no colo o embrulho pela metade, ficou olhando os pés juntinhos, encolheu-se mais. Largou nossa mão estendida, largou os cheiros, as vozes, os rostos. Seu Darcy, marido dela, pediu desculpas: “eu finjo que nem dói.”.
Um mar
15/ 12/ 2007
Uma vez, o Carpinejar escreveu que “não ser amado é pior do que ser invisível.” Minha avó me ensinou diferente: a gente ama melhor com o coração guardado à força, abaixando os olhos e virando o rosto para represar choro, por delicadeza, só para depois olhar de frente com um sorriso forte de ”nada não.” Minha avó me ensinou: não adianta sentir, nem doer, nem pedir, nem tocar de leve as mãos, toda ternura escorrendo no peito não adianta. A gente ama melhor ficando invisível.