Sobre a amizade

10/ 9/ 2007

“Como diz o provérbio, os homens não podem conhecer-se mutuamente enquanto não houverem provado sal juntos (…).”

[Aristóteles - Ética a Nicômaco]

Tremor de terra

2/ 9/ 2007

Dentro do sono, no espanto e na ternura, ouça só esse vento na janela. O mundo se agita. Ouça, no meu peito, os golpes com que entalho

riso olhos céu flechas

no corpo, no escuro, como um poço. No meu peito, alguém jogou uma moeda e esperou, esperou, mas não ouviu nada. Ouça agora esse barulho de água, de chão partindo-se, poeira levantada, os fios de água escorrendo pelas fendas, no corpo. Repouse aqui sua face e ouça esse ruído de pedra estalando, rasgando o chão. Encoste bem perto o ouvido ,na terra revolvida do meu peito, e ouça só, dentro do sono, do espanto e da ternura, o vento arrancando, varrendo aquele velho coração de pedra. No peito, no escuro, alguém plantou, regou, viu criar raízes, dar flor, fruto, viu cair um coração novo, de carne, rasgar o chão, espalhar-se. Ouça. O mundo se agita. Agora não existe mais esse vão entre o céu e o chão. Sempre que meu coração treme, a dor se encarna. No espanto, no escuro e na ternura, no meu peito, tome esse tremor de terra. Ouça só esse vento bom na janela.