Pelo Terrorismo Poético:
22/ 8/ 2007
Sobretudo
19/ 8/ 2007
Sempre achei a alegria coisa muito mais séria do que a tristeza. Meu pai já disse que se mata um tigre a cada dia pela alegria. Então, quando alguém me sorri, eu me pergunto o que aquele sorriso lhe custou de dor, de coragem, se foi demorado, se caiu e se quebrou, se é sorriso que alguém viu, ou que se perdeu, eu me pergunto o quanto lhe custou de solidão, de não haver ninguém que lhe toque a testa para dizer pode chorar, chora, chora, chora, ou se o sorriso é fruta apanhada na hora, a mais doce, que dá formiga, se é de presente, de sal, se é sorriso que alguém mereça, ou é só uma forma de represar o choro e ficar simples, simples como um menino com sua bola, muito antes de ser jogado às feras. Quando alguém me sorri, eu me pergunto se seu tigre de cada dia já passou, ou se ainda virá. À esquerda do peito, batendo.
Respeito
15/ 8/ 2007
Respeito. [Do latim respectare, "olhar muitas vezes para trás"] S. m. 1. Apreço, consideração, cortesia. 2. O que se dá incondicionalmente. 3. Propriedade especial do sentimento. 4. Coisa que se abre sem fazer barulho. 5. Qualidade do que é responsável. 6. O que é próprio dos gestos delicados. 7. Atenção, cuidado, suavidade. 8. Espécie mínima de carinho. 9. Qualidade sutil do que nunca se pede. 10. Aquilo sem o que as coisas mais ternas se quebram. Falta de __: propriedade do que é fraco; pequenos gestos que doem fundo; caco de vidro nas mãos [V. covardia].
Feliz Aniversário
12/ 8/ 2007
Ontem, minha avó fez anos. Teve festa com bolo e canudinho de doce de leite. Ela ficou na ponta da mesa, quieta. Prefere ouvir o barulho das pessoas. Algumas envelheceram mais rápido. Eu também queria parar o tempo, vó, congelar as vozes, os risos. O bisneto correndo pela casa, quebrando coisas. Como uma fotografia: “Isso também fere.”
Eu me lembro de quando era pequena e brincávamos de fazer túneis no canteiro de terra que não dava flores. Minha mão cavando em direção à mão de minha avó, até as duas se tocarem debaixo da terra. Vovó então dizia: “Encontramos”. Encontramos, vó, é contra nós que o tempo despeja toda a sua fúria, agora, muito. E fere, em nosso entrecruzar de olhos sobre a mesa.
Mas é uma ferida imperceptível.
Bilhete
7/ 8/ 2007
Antes do abraço, antes do roçar do rosto, antes da ternura dentro, entre e ao lado, como um regato dentro de um rio, a corrente impetuosa do segundo abafando o soluço do primeiro, entre as pedras, escorrendo, dentro do peito, como quem entra na água, as mãos à frente, ao redor e antes, bem antes, para tocar a luz do teu começo: aquilo me atravessou, como uma fresta de porta abrindo-se.
Para a claridade. Agora, mesmo quando seus olhos não estão, a luz continua.
Cuidado, plágio!
6/ 8/ 2007
Foi no site www.copyscape.com que descobri: plagiaram meu texto “Entre parênteses”! Coisa feia… Então, eu digo para essa mocinha aqui: você nem precisa roubar as palavras alheias, uai. Escreve tão bonito.
Tsc.
Terra estrangeira
1/ 8/ 2007
Quando o pai morreu, Nilza o agarrou no colo, soluçando “pai, ô, meu pai!”. Depois, ela não se lembra, alguém a pegou pela mão, limpou o rosto, deu de beber. No dia seguinte, Nilza foi fazer faxina com os olhos fundos. Se perguntavam, respondia “nada, não”. Hoje, me contou essa história e a outra, a de bem antes, de quando o pai voltava da cidade trazendo, na mão, caramelos. Os irmãos todos em volta, fazendo festa – menos ela, calada num canto, dura, batendo roupa. Hoje, não. Hoje, ela perdoa: “Coração dos outros, Juliana, é terra que ninguém conhece.”
