A precariedade

28/ 7/ 2007

A precariedade me comove. Por enquanto, me enternece a delicadeza de pousar

minha mão
em outra mão

por encanto, um passarinho pousando. O pequeno coração batendo depressa, debaixo da asa:  

ferida feita no vôo.

Não sou de chorar

27/ 7/ 2007

“A solidão foi o meu caráter. (…) Ali, escondido, mirrado, o menino que gostaria de ter sardas e ser ruivo, que passava horas sozinho para não ser obrigado a interromper o assobio. Não sou de chorar. Quando estremeço, sou de abraçar, de costas para as lágrimas.”

[Fabrício Carpinejar]

Primeira carta

21/ 7/ 2007

Creio que foi o sorriso, foi o sorriso quem abriu a porta. Ontem, eu voltei do almoço escrevendo, pelo lado de dentro, este começo de carta: creio que foi seu sorriso. Na verdade, foi a lembrança do sorriso. E quis te perguntar se você também teve uma lembrança qualquer, dia desses, e quis me dizer – mas depois achou melhor não. Melhor não, pensei, mais prudente é cuidar da lembrança com tato. Falemos sobre as pequenas coisas que nos cercam, falemos vagarosamente, para que durem. Façamos um pacto de silêncio enquanto caminhamos.

Ontem, enquanto caminhamos, eu fui escrevendo, pelo lado de dentro, este começo de carta para você: creio que foi o sorriso. Era um sorriso com muita luz lá dentro. Me dava a impressão, porém, de que, se alguém entrasse nele, havia de encontrar ali alguma velha ferida sangrando, um rio correndo. E quis saber se você às vezes se pergunta: o que é isso no peito, isso que parece asa? Melhor não, pensei, mais prudente é cuidar do sorriso com tato. Fazer do silêncio a minha forma de te acompanhar: os olhos é que são, enfim, minha verdadeira boca. Melhor não. Nem é do sorriso que eu mais gosto, ou da lembrança do sorriso. O que eu prefiro mesmo são os defeitos, tudo o que você não consegue, onde falha, onde não pára nunca de doer: eu prefiro o rio correndo lá dentro. É isso que quero ter perto.

Ontem, eu te abracei escrevendo este começo de carta: para ter dentro e de bem perto.

Sexto sentido

18/ 7/ 2007

Guilherme aprendeu na escola sobre os cinco sentidos. Voltou da aula dizendo: “Sabe o que é olfato? É o sentimento do nariz.”

Ele sempre quis vê-la usar vestido e maquiagem. Ela preferia calça jeans, camiseta e o rosto limpo. As unhas cortadas bem rente. Pouco depois do casamento, ele descobriu um câncer e foi secando por dentro. Então, todos os dias, antes de entrar no quarto do hospital, ela passava batom e ajeitava o vestido.

Só para vê-lo abrir um sorriso.

Entre parênteses

6/ 7/ 2007

[Quando é que o amor passa? Eu já tentei desviar os olhos para a xícara de café, fazer qualquer comentário tolo, pedir um abraço, partir sem voltar o rosto, eu já tentei chorar escondido, chorar acompanhada, chorar pra dentro, dançar de olhos fechados, quase tropeçar, parar de escrever poesia, eu já tentei empurrar em mim

a lembrança

como semente

na terra

à noite

na chuva,

e fundo, eu bem que tentei. Eu até sei que tem o jardim por regar, a avó pra ouvir, tem o céu pra olhar, cartas por escrever, tem a amiga na França, o amigo na praça, diários por colocar em dia, um caderno vermelho e outro violeta, tem as histórias por ouvir, os amigos por ler, satisfações para dar ao orientador, tem minha mãe rindo solto, tão linda, e crianças correndo, a algazarra que elas fazem, coisa de pássaro novo, tem as gérberas e os girassóis, tem sempre uma pessoa para cada coisa terna, tem a palavra lágrima, que parece som de instrumento de cordas, tem no peito esse barulho que não faz barulho e que eu dou a ouvir às pessoas. Mas quando é que passa, quando é que só o amor

basta?]

Sobre a metáfora

2/ 7/ 2007

Por que é que, quando me dão um vaso de girassóis, eu leio paixão, ou transbordamento, ou carne viva, ou qualquer outra coisa, menos girassóis?

:)

Meu coração é um barco abandonado, cindido em duas partes fechadas à chave, uma na outra. Avanço nesse coração como se fosse, ao mesmo tempo, num só barco, por dois rios. Meu coração é de olhos, madeira dura, e água, água só, salgada e pura. Avanço nesse coração, riscando a sombra de meu barco nos rios, os olhos duros: superfície imóvel da água que corre. Meu coração é um barco, é duro e salgado. Falta quem o lance ao mar, abandonado.