Minha avó
26/ 6/ 2007
Quando meu tio morreu, o médico disse que foi o coração que de repente parou. Não entendi direito. Minha avó explicou melhor: “Era um filho tão bom! O coração foi ingrato.”
Com a noite dentro
23/ 6/ 2007
Essa vida de fazer e desfazer malas me fez preferir as pessoas em horas assim, de partida, às vezes até de chegada. Horas de a gente não saber se vai ou se fica. Dei para chorar por quase nada nessas horas. E foi nessas idas e vindas que Seu Zé Venâncio me viu chorando escondido na plataforma de embarque: “Chorar assim é até desperdício.” Uai, Seu Zé, por quê? “Tristeza só é bonita quando é de presente.”
Os peixes abissais
18/ 6/ 2007
Não é saudade o que eu sinto agora. Eu queria que fosse uma dor que sara com remédio, depois o calor no peito, o sol no travesseiro, a convalescença. Queria ser puxada em uma rede de pesca, junto às estrelas do mar, às algas, conchas, queria ser puxada junto aos peixes azuis, vermelhos, cor de prata, os peixes abissais.
Não é saudade. Eu queria que fosse uma dor, o peso do que o coração carrega e as redes prendem, mergulhadas na ternura, e depois o sol no peito, o círculo de fogo, os peixes por terra, sufocando. Queria ser puxada junto a tudo que queima e ao que mais brilha, e fundo, eu queria o mar no fundo, e depois a beleza, a tristeza de tudo que arde.
Não é saudade. Eu queria uma dor, destroços, navio naufragado, um tesouro que se espalha e afunda e perde, onda que recua. Queria ser arremessada de volta, e para baixo, para o céu, brilhante, estilhaçada, cintilando, junto ao que faz doer a vista, água salgada partindo-se contra as rochas. E o sol. Como se fosse o mar quem, em mim, ao rebentar, depositasse a ternura. Saudade, não. Eu queria uma dor que cura.
A função do poema
15/ 6/ 2007
Ontem, depois da nossa aula, o Andityas veio me mostar uma edição de poemas peruanos que ele prefaciou (“O rio que fala”, Editora 7 Letras). Ia me mostrando um poema seguido do outro: “Deixa eu só te mostrar mais este.” E este, e mais este. Eram poemas bonitos mesmo, eu nem conhecia nada de poesia peruana. Mas o que tornou os poemas mais bonitos foi aquele pequeno ato de ele compartilhá-los com paixão, gratuitamente: “Este poema é bonito demais, não acha?” Eu acho. Eu acho que escrever, ler ou compartilhar poemas é como passar bilhetes de mão em mão, em silêncio, numa espécie de solidão acompanhada, que é essa nossa condição no mundo.
No início do ano, num dia em que eu estava especialmente triste, minha avó tirou da gaveta do criado-mudo um bilhete que eu havia escrito para ela quando era pequena, a letra redondinha e alguns desenhos de peixes com traço torto, coloridos: “Querida vovó, eu te amo como o mar no fundo.” Ela me deu aquele bilhete e disse para eu guardá-lo comigo. Por que isso, vó? “Às vezes, a gente precisa de algo que nos lembre da nossa inocência original.”
Eu acho que essa é mais ou menos a função do poema.
Samba da madrugada
11/ 6/ 2007
Em Santa Tereza, sábado, dá até samba, que é barulho que começa devagar, mas vai ganhando fôlego. No meio do samba, eu até viro Juliana de todos, a plenos pulmões, e canto forte e bem gritado, que o pior amor, Saulo, é amor calado. E o Saulo, com sua alegria séria, ou triste, ou enterrada, eu sempre acho que, no meio de todos, vira Saulo de ninguém, de partida, e canta dentro e bem apertado, que ”a pior dor, Brina, é dor não sentida.”
Eternuridade
3/ 6/ 2007
Três minutos podem ser uma coisa muito demorada. Em três minutos, viajo puxando a linha do meu vestido, o fio lilás, num rodopio: três minutos entre o alô, o balanço de uma asa, oi, um sopro num fio de cabelo, como vai?, três minutos entre um punhado de coisas, tudo bem?, a ligação quase caindo, tudo bem, o ônibus quase chegando em Curvelo, e vc?, a lua subindo um palmo na janela, legal, alguém tossindo, então tchau, num rodopio, tchau e boa sorte.
Três minutos podem ser uma coisa muito breve. Em três minutos, há palavras que não cabem: entre o alô, o amor não sei se é possível, oi, se cabe em três minutos, você está feliz?, ou só a memória do amor, ou está triste?, o amor esgarçado, eu só acredito na ternura assim, saudade é palavra comprida demais, assim, não cabe em três minutos, assim suspensa, comprida demais na minha mão.
Em três minutos, quando o giro se completar, seus olhos mudaram?, estarei de volta, quem o ilumina de longe para que não caia?, saudade tem som de instrumento de cordas, você reconheceria os meus olhos?, uma qualquer lâmina de serrar o silêncio, eles mudaram, saudade definitivamente não cabe em três minutos, quem passa os dedos nas pálpebras dos seus medos?, amor talvez, você guardou o caderno vermelho?, na minha mão o fio lilás, você leu?, na extremidade do fio, isso importa?, uma ponta de vazio.
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[eternuridade, s.f. (do latim aeternitate por aglutinação com do latim ternu). Qualidade efêmera do que é terno.|| O que há de eterno no transitório.|| Afeto muito longo; tristeza suave e demorada]
Sobre o amor
1/ 6/ 2007
Guilherme tem seis anos, uns olhos que brilham e perguntas que a gente não sabe responder: “Tia, o que acontece quando a gente morre e o coração não pára de bater?” A única coisa que eu pensei foi: amor.