À margem esquerda do rio
27/ 5/ 2007
Dos rios se diz que são violentos. Fiquei com isso o dia inteiro, a imagem das calhas dos olhos riscando o rosto. Mas ninguém diz violentas as margens que os comprimem. Isso me acompanhou: as pessoas que escrevem nosso rosto, cavando-nos entrelinhas ao redor dos olhos, para o que escorrerá depois. É bonito pensar nas pessoas como uma parte do nosso rosto, as pessoas que nos deixaram sulcos. Pensar no rosto como um mapa que talvez elas nunca nem leiam, nunca apontem o lugar onde está encondido o tesouro, o lugar de tudo que para sempre brilha, e o da sombra mais fria. É bonito olhar forte para um rosto devastado, até abri-lo um pouco, e ler. Feito beber o que escorre. Como os animais pequenos quando aparecem para beber nos regatos, depois de verem partir as grandes feras.
[Em itálico, Bertolt Brecht]
Aula de catecismo
27/ 5/ 2007
Das aulas da Dona Ivetta, lembro-me mais ou menos disto – e do jeito arrebatado que ela tinha: “Quando sentimos alegria ou sentimos dor, Deus não é bom nem mau, Deus é detalhista.”
(Entre)Linhas
24/ 5/ 2007
Minha avó é, provavelmente, a pessoa que mais conhece meu rosto. “Essas rugas, aqui, você não tinha.” E toca ao redor dos meus olhos. “Pois é, vó.” Ela sorri: “Não faz mal. São as calhas dos olhos.”
Sobre o desamparo
18/ 5/ 2007
Conheci Dona Carolina no supermercado escolhendo verduras. Virou-se para mim como se viraria para qualquer um que estivesse ali: “Meu marido faleceu hoje.” Acho que ela só estava procurando alguém com quem desabafar. Dona Carolina viu o marido chorar feito menino, de dor. Sentada no hospital ao lado da cama, dias seguidos, ela o ouviu pedir “não quero que me veja neste estado”. Dona Carolina permaneceu sentada mesmo assim. “É como colocar uma flor num copo com água, Juliana, e ver a flor ir morrendo.”
Memes
15/ 5/ 2007
A Ane me puxou pelo braço…
“Um “meme” é um “gene cultural” que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autônoma.”
Adorei a ciranda. Lanço na roda minha resposta ao desafio:
“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto, que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida nos ensinou. Isto me chega, montão.”
[Guimarães Rosa]
Agora eu puxo pelo braço e repasso o desafio para eles aqui ó:
Cássia
Eduardo
Maria Helena
Rodrigo
Sábado com uma rosa dentro
11/ 5/ 2007
Do ônibus, voltando para BH, eu vejo um punhado de coisas num fim de tarde de sábado. Gouveia, por exemplo. Gouveia é uma pequena cidade mineira com meninas que correm pela praça, cadeiras na calçada, gente sentada na porta de casa, cismando, casas azuis, verdes, amarelas, com jardim ou quintal, no quintal roseiras, no meio das roseiras uma senhora de cabelo branquinho regando as flores, duas meninas que correm, gritando e rindo, e uma voz cantando baixinho, a igrejinha no fundo. Um homem junta folhas no quintal, uma pilha, depois coloca fogo. As meninas param e riem. Em alguns anos, essa luz de fim de tarde e de fogo aceso, com risos e a voz de alguém cantando baixinho, isso tudo, e principalmente as rosas, em alguns anos, esse cheiro de rosas e folhas queimando vai se tornar só saudade naquelas meninas.
Meu pai
8/ 5/ 2007
Nele, a alegria é mais real. Entrelaçada na tristeza – e na coragem.
Da propensão a perder chaves
4/ 5/ 2007
Tenho perdido muitas chaves pela vida. Hoje, passei por um colega sem ver. Ele me chamou e não ouvi. Teve que me tocar o ombro. Pensei, então, no pouco que conseguimos reter. Vocês também têm essa impressão?, de que todas as coisas estão constantemente a cair. No esquecimento ou em silêncio, escondidas. Penso nas histórias que nunca serão ouvidas, nas que nunca vamos contar, num céu que ninguém vai ver, numa menina que vai passar por mim chorando e não vai me pedir a mão, não vai me tocar os ombros.
Tenho perdido muitas chaves pela vida. Tenho saudade de todas as histórias que não pedi para avó Maria contar, o biscoito que ela não fez, o polvilho ainda na latinha, a receita para sempre perdida. Avó Maria nunca me viu chorar, nem eu nunca lhe pedi as mãos. Pois é, tenho perdido muitas chaves. Eu sei que todos nós carregamos algum ouro no peito. Até tento recolher o ouro que as pessoas derramam, mas, na vida mesmo, sou desajeitada. A batéia é pouca para o garimpo.
Tenho perdido tantas chaves. A do coração de Sérgio só abria uma das muitas portas. Da primeira vez em que o vi, achei que seus olhos eram mais velhos do que o resto do corpo. E, quando ele sorria, era sempre difícil, o rosto todo se abrindo, parecendo o mar quando chove em cima. Eu procurava olhar isso forte, como quem tira uma fotografia com os olhos, para não esquecer.
É que tenho perdido muitas chaves. Meu coração, acho, funciona como um esquilo: eu acumulo e acumulo pequenas coisas, depois as escondo, para quando chegar o longo inverno. Só então, irei buscar meu pequeno tesouro de sorrisos se abrindo, mãos fazendo biscoito, polvilho branquinho, gente que me toca os ombros. Mas, até lá, se alguém se aproximar de mim, vou me precipitar até a árvore mais alta e escura e equilibrar meu tesouro entre os galhos.
É que temos perdido muitas chaves pela vida. Se alguém nos chama, não respondemos. Se alguém nos pede amor, não estremecemos. Vocês também têm essa impressão?, de que perdemos tantas, tantas chaves. A única chave que conservo preserva-me alguma inocência. Só para não perdê-la, eu equilibro, na garganta, o coração.
Pequena morte
1/ 5/ 2007
“… porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”
[Eduardo Galeano]