Sobre faíscas

28/ 4/ 2007

O Anselmo eu também conheci voltando de Diamantina. Vivia em Belo Horizonte, até o dia em que percebeu que precisava aceitar o silêncio quando vem. Largou amigos, trabalho e amores, comprou uma casinha em Milho Verde, plantou uma horta e todos os dias pela manhã ele olha o céu. Hoje, dá aula para crianças de uma escola primária na região. Na escola, falta tudo. O chão é de terra batida, às vezes nem luz tem. Como foi isso, Anselmo? “É que as pessoas são como lamparinas. De vez em quando, elas acendem.”

Lição de vôo

26/ 4/ 2007

Da primeira vez em que vi o mar, eu chorei. De medo. Foi meu avô quem me tirou o medo do mar. Me dava a mão e me levava cada vez mais perto da margem. Eu soltava a mão dele e corria de volta. Ele me pegava de novo com paciência. Um dia, vimos uma menina à beira-mar fazendo um castelo de areia. A coisa mais linda. “Me ensina?” Meu avô me ensinou a espremer areia molhada na palma das mãos e fazer uma torre. Nem reparei quando o mar chegou perto e molhou nossos pés.

Vieram-me tantos outros medos depois desse. Por isso, eu queria que alguém me ensinasse com a mão firme: olha, viver é assim e assim, espremendo a areia até ficar uma torre bonita. Eu queria tanto! Então, eu leio poemas, grifo, repito antes de dormir, rego as flores, choro ao som de bandoneon, vou trabalhar, aprendo a dançar flamenco, converso aqui com vocês, vou para a faculdade, volto, olho o céu, olho mais, reparo no jeito de uma pessoa abaixar os olhos, eu invento a mão firme que me leva até bem perto

do mar.

Chuva de flores

23/ 4/ 2007

O mar, metade de minha alma é feita de maresia. A outra metade está entre as montanhas, é feita de quintais, de passar as tardes aos tiros, brincando de ladrão e mocinho, e depois discutir quem morreu primeiro. É feita de pitangas roubadas sem ruído, a outra metade é feita dos joelhos esfolados, de  mãe rezando, velas espalhadas pela casa, e do primeiro beijo dado atrás da capela. Cantigas, metade de minha alma é feita de cantigas, de ciranda e bandeirolas de festa junina, de dançar quadrilha com aquele menino com quem mais tarde não vim a casar. É feita de bolo de fubá, caixinha de passas comprada no Mercado, queijo branquinho e pão áspero de aveia. A outra metade da minha alma é sentar debaixo da buganvília, sacudir os galhos e fazer chuva de flores, é untar tabuleiros com as mãos cheias de manteiga, fazer café com biscoitos de mentirinha, são as bonecas aprumadas à mesa, às cinco da tarde. É feita de chorar no primeiro dia de aula, e no segundo, e no terceiro me esconder no banheiro até a mãe ralhar, e então chegar atrasada na escola e no quarto dia fazer um amigo que me oferece balas. É a roupa branquinha, engomada, a saia pregueada, a outra metade da minha alma é uma flor colhida no caminho, uma caixinha de música de presente, o soldadinho de chumbo sem uma perna e a bailarina. É festa com suco vermelho, com pão-de-queijo e bolo. E vela para assoprar e fazer pedido. A outra metade da minha alma é o doce comido às escondidas, é o faz-de-conta que sou uma menina assim e assim, faz-de-conta que eu não choro, que estou aqui sentada fazendo chuva de flores, faz-de-conta que a outra metade da minha alma é essa menina, faz-de-conta que, às escondidas, essa menina é minha aposta na alegria.

[Em itálico, verso de Sophia de Mello Breyner Andresen]

Falar do jeito como nos olham quando o amor acaba! Falar do amor escorrendo, do rastro de sal que o amor deixa,  e depois o chão seco.  Seco.  Falar do jeito como nos olham quando tudo que resta é uma vontade de ferir, falar desse dardo incendiado, do rastro que ele deixa, dessa claridade derramando-se violenta em uma taça pura. Conheço o sal. Conheço o jeito como tropeçamos num olhar incendiado, com medo de altura, medo e vertigem. O amor é um poço tão fundo! Conheço o sal e a água dos meus olhos. E o poço escuro dos dele. E o meu jeito de tropeçar lá bem no fundo e tentar resgatar um qualquer resto de onda quando recua. De onda secando. Falar do jeito como nos olham quando o amor acaba! Conheço o sal que resta em minhas mãos. Falar de olhos é falar de como todas as coisas se transformam noutra coisa e se apagam entre as mãos. Também de pranto vestiram-na toda. Mas guardo nas pálpebras esse olhar que me deram. Como um manto, mais fino que roupa.

[Em itálico, versos de Fiama Hasse Pais Brandão]

Amanhã fico triste,

20/ 4/ 2007

Amanhã.
Hoje não.
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.

[Encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças do campo de extermínio de Auschwitz. Autor anônimo.]

Sobre o que escorre

17/ 4/ 2007

Minha mãe tinha sete anos e queria vestir-se de anjo. Queria levar palmas até o altar e cantar. Era a coroação de Nossa Senhora. Queria também que minha avó fosse vê-la, mas vovó tinha um punhado de coisas para resolver, contas para pagar, menino para levar ao médico. “Pode chegar mais tarde, mãe.” Na hora de levar as palmas, mamãe procurou minha avó no meio daquela gente toda e não achou. Olhou para todo lado e nada. Já ia ficando triste, quando avistou minha avó num canto. Foi quando sentiu um engasgo, uma tristeza mais forte ainda: sabia o que custou a vovó estar ali só para vê-la vestida de anjo. Quase não deu para cantar. Minha mãe se lembra nitidamente: “Eu chorei por dentro.”

Lição de casa

15/ 4/ 2007

Conheci o Seu Zito voltando de Diamantina. Dar aula por lá é mais aprender que ensinar. Seu Zito pega o ônibus para descer depois do trevo e seguir caminho à pé para casa. “Mulher em casa esperando a gente com a janta pronta, despois da roça, é feito fosse perdão.” Como assim, Seu Zito? “A senhora professora me desculpa, desse negócio de lei eu não sei, mas na roça é assim: lugar onde a gente é mais livre é o coração.”

Com o ouro no peito

15/ 4/ 2007

Rômulo tem 10 anos. No ano passado, submeteu-se a uma cirurgia complicada. Sua mãe fez até promessa a Cosme e Damião. Hoje, ele corre, joga bola, pede para comer doce antes do almoço. Sua mãe pagou promessa distribuindo balas para a meninada. Rômulo ficou só com uma cicatriz cortando o peito. Ele me mostra e diz: ”é minha medalha de guerra”.

Até o dia em que a Carla foi visitá-la no abrigo de adoção. Era um bebê pequeno, autista, não se mexia, nem reagia à luz. As pessoas me disseram que não adiantava pegá-la no colo, que ela estava trancada no seu mundo.” A Carla pegou a Marcela assim mesmo. E cantou para ela. “Quando a coloquei de volta no berço, Marcela chorou.” 

Ela se volta de repente para dizer “Nunca mais. Não é estranho saber que nunca nunca nunca mais?”, e me sorri. Por que será que nos dói o coração ao vermos um par de sapatos abandonado? Ou um copo bebido pela metade, uma palavra que houve e alguém esqueceu, ou que sequer houve, um jeito de tocar a testa que não existe mais, qualquer coisa assim, abandonada, por que nos dói se alguém nos sorri assim tão fraco, perguntando “mas nunca nunca nunca?”. Pois é, nunca mais é tão estranho. Eu não sei de outro nome para a ternura.