Per ardua

9/ 11/ 2009

non est ad astra mollis e terris via*
per aspera ad astra**
[Sêneca]
opta ardua astra sequi***
[Virgílio]
Ternura, pá de terra que bato com raiva
sobre o peito, para que outro cresça, coração
e desterrado, pela raiz e pelo áspero, de mim para sempre
arrancado, e por um rio cortado, coração
o rio que arranho com os dedos o peito a pele viva
sobre a pedra bruta, para que nascente exista, à força,
e pequena e frágil e no peito lavrado, coração, para que corra
terra adentro, e para sempre seja
negrume
eu bato, coração, para que seja aqui e para sempre,
e seja o mais sem
luz, o mais sem
ternura, que pequena frágil escura, coração
e em carne e viva,
seja aqui e para sempre e fundo
o
meu
céu.
* [não há caminho fácil da terra até as estrelas]
** [pelo áspero, até as estrelas - isso ainda vai virar tatuagem em mim ;)]
*** [escolhe o árduo a que se seguem as estrelas]

Uísque

14/ 10/ 2009

[poema-espelho de um poema do Everton:
"Que tipo de nome
Se dá a essa coisa
Urgente
Sob a carne
Como quem arranha a porta
Como alguém
Que simplesmente não pode
Um bicho que corre
Em todas as direções"
;)]

Você bebe do meu copo
partido, amor
o que o mar juntou no fundo, você bebe rindo
com os lábios rasgados e me deixa um rastro
vermelho
no corpo, você bebe
e bate, bate, agarra-me os cabelos, me arranca
um gemido um grito cada tremor cada um e sem me despir
e sem se despir
me entra em pé e durante e depois, me bate
mais e mais e novamente e diz
você é minha tristeza, amor
e eu rio
e você mar,
seus dentes fincados
âncora
no meu ombro, no peito, e embaixo,
e me bate, batemo-nos como os cascos
dos navios,
como navios aprendemos, com o mar
como o mar, colocamos os corpos
em perigo.

Você me bebe
rindo,
e partido, e me agarra, enfia, arranca, morde, cospe,
e bate, vai
bate com as costas
das mãos
forte
me salga, me trespassa
bate, amor
com a fúria das bestas
como quem castiga um cavalo
rebelde.

Eu bebo da sua garrafa mesmo
sem copo, é assim que nos comunicamos
é pelo corpo
não, sim, está frio, o tempo está bom, obrigado
como crianças que não sabem falar
bate
forte
vai
é assim, como dois soldados feridos depois da guerra
me agarra, enfia, mete, arranca, engole,
como cavalos,
e mais e mais e novamente, e embaixo, e atrás,
sangue e água e sal correm de nós, maré que enche, vaza, escorre
lágrima por lágrima, nós lavamos
com álcool
a solidão
entre nós.

Sem copo,

nós a bebemos sem copo, da garrafa mesmo, com o corpo
amassado das pegadas, partidos, com álcool
e orgasmos, arrancados de nós com um rugido
de mar
na tempestade
em fúria, o rugido de alguém ferido por uma rajada
de tiros.

E eu rio
e você mar, e não deixamos nada de nós?
os dois
no fundo, no corpo, na foz, no mar
que atravessamos
com dor,
com o galope molhado
dos animais.

“Aprendo mais com abelhas do que com aeroplanos. É um olhar para baixo que eu nasci tendo. O ser que na sociedade é chutado como uma barata cresce de importância para o meu olho. Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo. Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão antes que das coisas celestiais. Pessoas pertencidas de abandono me comovem: tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.”

 

[Manoel de Barros]

Sarau de Pássaros!

29/ 9/ 2009

“Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém, o primeiro rendido é o entendimento. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se ajuntam.

 
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor,  de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se for amor. São afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.

 
De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.

 
O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar. O amor, com a da terra. É o amor como a Lua, que em havendo Terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.

 
Os olhos são as frestas do coração, por onde respira; e daqui vem, que o coração, na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora e exala os afetos; porém, na ausência, em que os tem tapados pela distância, que lhe sucede Assim como o vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar, concebe maior calor, e o reconcentra todo em si e talvez rebenta, assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio, recolhe dentro em si toda a força e ímpeto do amor, o qual cresce naturalmente, e se acende e adelgaça, de sorte que, não cabendo no mesmo coração, rebenta em maiores e mais extraordinários efeitos.

A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo pois a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este terceiro remédio seria também o último e o mais presente e eficaz? A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor - o tempo, esfriar o amor – a ausência, é sem-razão de que todos se queixam. Mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa, que privar do amor a um ingrato?

 O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?

É, pois, o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar, o melhorar do objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim, no mesmo coração, não podem caber dois amores. Porque o amor que não é intenso, não é amor. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto.

 
É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades.

Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. Comumente, se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz, é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem, e resplandecem mais. Mas, em aparecendo o Sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.”

[Pe. Antônio Vieira]

:)

Confissões

8/ 9/ 2009

Nunca esqueço um rosto. Casualidades me encantam.

Homem meu tem que me dizer meu bem. Tem que me dar flores roubadas e meter-se feito sol dentro do corpo, o sol quando fica na pele mesmo quando já é noite. Eu gosto do mel no favo, do amargo no fundo do doce (o amargo dura mais). Eu me defendo do amor. Prefiro o outro lado, o do fogo silencioso na guerra. Não sou de chorar. O mar me atinge é direto no peito. Eu sou é de abraçar.

Derrubo coisas, esbarro nos móveis, tropeço nos meus pés. Sempre me apaixono de repente. Vermelhos são meus vestidos, meus cadernos, minha flor predileta. Minha alegria é vermelha. Meu riso faz um estalo de coisa quebrando dentro. Gosto de ficar no escuro. Coisas miúdas me doem mais. Prefiro declarações de amor inesperadas (às cinco e meia da tarde). Vento nos cabelos me parece carinho. Gérbera é minha flor predileta. Coleciono dragões em miniatura. Tenho um cachorro chamado Pacote. O lugar mais longe em que já fui é:

dentro.

Meus olhos me traem. Meu cadarço sempre está desamarrado. Som de gaita me emociona. Não me interesso por pessoas sem dúvidas na vida. Já pulei o muro da escola para matar aula. Já torci o dedo brigando no recreio. As únicas coisas que herdei de minha mãe são

a falta de discernimento

olhar as nuvens

o silêncio

um riso

e o furinho no ombro esquerdo,

o resto não, a menina saiu ao pai. Meu invólucro é fino, neblina sem nada dentro. Prefiro jabuticaba. Estou aprendendo a chorar em público. Acendo lâmpada com os olhos. É na chuva que eu gosto de dançar. Meu coração eu acho que fica nos pés, de tanto partir. Sou mais de mar que de rio. Mais de silêncios que de palavras. De todas as coisas, prefiro as usadas. Desde pequena, roubo flores de canteiros públicos.

Sempre me atraso. Amor para mim é nosso tempo nas coisas. É o tempo, coisa para se perceber depois com os olhos distraídos e reparar fechando-se, sem saber exatamente o momento em que se cala, mas sentindo o coração doer pequeno com esse

calando-se

em contínuo, sem saber onde termina, nem se começa, ou volta, ou onde, alguém sabe para onde?

Eu nunca me curei da minha infância. Sigo desconhecidos na rua e me perco. Ouço conversa dos outros. Leio dedicatórias em livros dos outros. Estranhos me abordam dentro do ônibus. Crianças me oferecem bala na escada do meu prédio quando estou triste. Quero uma filha chamada Sofia (ou Tereza). Gosto de cachorro quando espreguiça. Gosto de gente que me pede carinho, principalmente se abaixam os olhos para me pedir carinho.

Gosto das coisas assim, no momento exato em que elas acabam para sempre. Eu sou feita de saudade. Qualquer coisa fechando-se é mais bonita. Para mim, a palavra mais linda de todas é travessia. Sou de agarrar com força. Sempre amei por alegria.

Etimologia

23/ 8/ 2009

['juliana', do latim:
a que pertence à luz, a que brilha -
'brina', do italiano:
névoa, neblina -]

chamo-me juliana brina, sou duas, eu sou
aquela menina
encolhida no canto do quarto, para chorar calada, de costas para o mundo, a menina de repente sozinha, e sou
aquela mulher
que será para sempre o sal dos teus olhos, será tua água e teu pão, a mulher cujo cheiro vai se agarrar a teus dedos, ao corpo, a que vai te doer,

aquela

aos pedaços, de tanto partir, a que vai bater portas e janelas e caminhará para longe, cheia de fúria, com o coração alto, feito o mar, eu sou
duas, a que engole as lágrimas, neblina ao redor, cobrindo tudo, e a que te dá de comer o sal pela boca, como fazem os pássaros com os filhotes, neblina com luz dentro, eu arranco meu amor de mim todos os dias

com os dentes

e meu coração é um resto.

[Publicado também no Pássaros Achados :)]

Ceia

14/ 8/ 2009

Este é meu corpo, toma

e come de sua parte nesse pão, essa coisa bruta e pobre, pedra que se mastiga, pedra dura ressentida, toma e come e me salga as feridas, deixa a marca dos dentes, e engole com força, com lágrimas, come

de minha boca os choros, as cordas, um som de realejo, toma-me o peito que me bate feito sino e de tão

leve ninguém

escuta e arranca de minha boca o córrego, o mar, a nascente, as pedras na margem, toma

este é meu sangue, é de amor escorrido, riscado de mim, em cortes doídos, toma

até o fim, inteiro e agora,

o que me arrancaste, sem dó, com os dentes, no coração, amor,

agora bebe.

[Publicado também no Pássaros Achados :)]

Primeiro haicai

9/ 8/ 2009

Carinho de olhos:

O gosto do preto e depois o do branco
Feito jabuticaba
Só que triste.

 

[Publicado no Pássaros Achados :)]