{umidades}

25/ 11/ 2010

 

1.

o clarão
a chuva
e o cheiro de terra
e folhas
(pisadas)
em mim
(úmida)
quando me caem
seus olhos.
* Petrichor – do grego “petros” (pedra) + “ichor” (o fluido que escorre nas veias dos deuses gregos).

{rastros}

18/ 11/ 2010

[Tela de Christopher Brennan, “Sun on an Empty Chair”]

Tire de mim esta fotografia, só com os olhos, a memória, e as mãos segurando o vazio. Tire-a de mim. Esta fotografia em que meus olhos não me levam, aqui onde sou eu que carrego meus olhos, como lagos onde a água jamais é trocada: é uma água intacta. Derrame o mar em meus olhos. Misture o salgado no doce. Quero uma fotografia exatamente assim: dois lagos, o mar escorrendo por cima, e um sol lá longe. E nela sou eu quem carrega os lagos. Como um fardo. Como um marinheiro que luta contra a fúria das ondas, e a elas sobrepõe o seu grito, porque mais alta que o alto-mar é a sua raiva, e o seu choro, e contra o mar ele fecha as escotilhas, e parte as ondas como quem quebra um espelho.

Tire de mim esta fotografia como um espelho, com os olhos partindo-me: eu carregando dois lagos que você despedaça com os olhos, a memória, e as mãos de onde pende o vazio, e então esse vidro em pedaços me escorre pelo rosto, e no meu rosto o sol se quebra sobre os vidros, e esse colorido que você vê agora na fotografia (não se engane) é apenas um fenômeno óptico. E nada disso se percebe na menina da foto.

Porque na foto não há ninguém. É você quem a desenha com luz e contraste. Você tira com os olhos uma fotografia que vai se embaçar na sua memória. Até virar uma fotografia inventada. Até você não se lembrar mais se havia mesmo uma janela, se estava aberta, se a cadeira estava no centro, se alguém sorria, ou se a menina já tinha ido embora. Se você estava alegre.

Eu quero uma fotografia assim: inventada. Para se esquecer. Ou desenhar por cima. Desenhar sobre a cadeira vazia uma menina que já não está. E derramar no seu rosto um riso. Pintar um mar nos olhos, deixar a tinta escorrer, formar um sulco. Até você não saber mais se era uma velha ou uma menina. Veja bem: a sala está vazia, eu não estou aqui, e o colorido é pura refração. E você não está segurando uma máquina fotográfica.

Mas repare: mesmo inventada, na fotografia nossos corpos colidem, e repartimos o vidro dos meus olhos, e bem perto escutamos o barulho da arrebentação. Veja bem: estamos cercados de prédios, e atrás dos prédios montanhas, e depois céu. E o céu está sujo. E o colorido é o mar que derramei sobre a fotografia, e esse mar já secou, e você só tem essa lembrança esgarçada da cor que havia. E o vidro que rasga os seus olhos é invisível.

Mesmo assim, você tira de mim essa fotografia, e tira-me exatamente agora, sem piscar. Aqui há apenas uma cadeira vazia, eu já me ergui da cadeira, já abri a porta, a porta fechou-se atrás de mim, e a cadeira ficou do outro lado de nós, e pela porta entrou uma velha muito parecida comigo. Mas veja só, atrás das lentes, há alguma coisa invisível para as pessoas que são fora de nós, e que não estiveram naquele quarto, e que nunca poderão ver a fotografia que você nunca tirou. Repare bem, está ali, registrado e intacto: nós enchemos o quarto de alto-mar.

* Fotografia: φως [fós] (“luz”), e γραφις [grafis] (“pincel”). Desenhar com luz e contraste.

** Texto-espelho inspirado pelo poema “Encomenda” da Cecília Meireles:

“Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.”

{ardor}

10/ 11/ 2010

Hoje não quero palavras, nem metáforas: quero cores vivas. Saio na chuva, para que a água se afogue violenta, e que o faça fundo no leito do meu rosto. Para que me toque com sua brutalidade de chuva sobre chão de terra. Toque-me, tempestade, porque há tanto tempo não nos tocam os cabelos, os rostos, os corpos. Há tanto não nos tocam. Não com o violento arder das cores vivas. Então, hoje, para a chuva, faço-me aquarelável, e cubro a rua de vermelhos. A tempestade a derrama em mim, e a rua escorre junto comigo. Embaraçamo-nos, escarlates. Para que nos abracem com água, e com céu, e sol. Para que nos embacem, como um beijo quente sobre a vidraça. Como o vapor do que ferve, e queima as mãos na panela. E deixa cicatriz, feito o talho de um abraço sobre o peito. Um abraço de verdade. Então, para não afogar é que pinto com os dedos, e afundo-me os dedos, com as mãos na tela do peito, para me arrancar da tela, para ser fora dela, para existir, para me lembrar que estou e quero, quero com ardor todas as cores que me ardem, as cores vivas, para que eu me lembre como se toca e abraça, mesmo que seja um abraço de chuva: agora eu me lembro, porque em mim afoguei minhas mãos. Porque em mim a tinta é mais quente, e quando ela escorre é por dentro, em profusão. Vermelha.

{ Aqui: http://julianabrina.tumblr.com/ }

{travessia}

9/ 11/ 2010

Eu te amo. E o meu amor não tem importância alguma. Ele não desloca nenhum pássaro, flor, folha, galho, nenhuma massa de ar. É imperceptível. Ninguém me sente o coração batendo. É apenas uma paisagem interna. Meu amor é algo que atravesso. Não quero que ele um dia cristalize. Nem que se tranforme em tristeza. Ou se torne amargo. Por isso, eu o atravesso. Continuo a atravessá-lo. Eu me atravesso a mim. Como quem desaparece dentro da chuva, ou na claridade bruta. Com vento de tempestade dentro. Arrancando todas as folhas. Com o ruído agudo que se escuta quando um leão beija com cuidado um pássaro caído, para não machucá-lo: eu te amo. Eu resvalo por esse lugar perigoso: o meu amor. A todo momento, essa mulher que me atravessa precisa de se lembrar de si, e de mim, e da paisagem inteira, e percorrê-la de volta, sem provisões e sem mapa. Para que seu amor finalmente se explique, e revele a substância de que é feito: a menina que fui, o céu azul, o sol intenso, e tudo que então brilhava, os bichos, o quintal da avó, o pé de romã, o branco, o limpo, o simples, e meu coração. Meu coração que não tem importância alguma. É só uma pequena parte de todo o amor que você ainda vai receber da vida, das pessoas, talvez de um céu claro de tarde, apenas uma pequena parte de todo amor que você vai receber escondido, gratuito, e secreto, ou gritado, e duramente arrancado, da vida. Mas é tudo que tenho, meu coração branco e limpo, e pulsando. É com ele, e dentro, e invisível, que eu te amo. É tudo que tenho para você, para te fazer alegre com meu coração batendo, e com meu coração te guardar da noite ou dos perigos. É ínfimo e íntimo, imperceptível como um vento nos galhos, ou um acariciar de asa no vazio: o meu coração, com o amor batendo.

aproximação à dor

28/ 6/ 2010

Quando meu avô chega perto de morrer, é assim bem de perto, e ele sempre volta depois, mas volta um pouco menos, e um tanto longe, e alguma coisa ele deixa para sempre do outro lado, para morrer. Minha mãe me pede apenas a mão, para apertar, para caber tão exata na sua mão, e me pede o silêncio partilhado e forte de apertar. Quando chega bem perto, também de perto as mãos se buscam, e sabem da dor como as plantas sabem do sol, e assim mesmo buscam, e é o sol o que minha mãe sente nas mãos como se fosse, e é, desajeitado/ perto/ invisível, do tamanho exato da sua mão,

o meu amor.

Cartas possíveis

6/ 6/ 2010

Essa mulher não pedirá nada. Ela vai sair à rua, o rosto ao vento, e de chuva cobrirá esse rosto, para esconder. Vai ajudar um homem cego a subir no ônibus, e o fará com um gesto simples, mas o homem cego estará tão só, e choverá tanto, e o gesto será tão simples, que será com esse coração tão desamparado e tão só, que é seu único bem nessa noite e nessa chuva, que o homem cego vai dizer à mulher, essa mulher que chora em silêncio, escondida pela chuva: “Deus te abençoe” , e ele vai dizer sem saber sequer dessas lágrimas, porque o homem cego não tocou o rosto da mulher que chora, mas se tivesse tocado ele saberia, e apenas ele, cego, entre todos os outros seria o único a saber separar, da água doce que o céu derrama, o rio de sal que escorre dessa mulher. Deus te abençoe, ela repetirá para si, muda, e essa mulher, por muito tempo ainda, ou talvez apenas nessa noite, essa mulher usará isso como um amuleto, como faz quando vê um pássaro, ouve uma música num apartamento, uma música antiga, ou uma música que alguém esqueceu, ou quando vê o céu de repente, ou com a bênção de um cego. Essa mulher vai se agarrar a esses amuletos. Ela vai descer no ponto errado, porque está tão escuro aqui, e vai caminhar na chuva e no vento, e vai chegar numa praça e a praça estará cheia. E haverá música nessa praça. Apesar da chuva e do escuro e do vento, haverá gente e música. E o coração da mulher que chora ficará pequeno, mas tão pequeno, e ela vai pensar como é simples a alegria dessa gente, e como é frágil. E de repente um desconhecido vai começar a conversar com ela, e ela será obrigada a se desdobrar ao mesmo tempo em três, e absolutamente desgarradas: a mulher que ouve a música, a que responde às perguntas e a mulher com o coração apertado, e todas as três serão de repente apenas essa mulher que chora, e chora invisível. Nessa mulher o coração bate na pele, à superfície, e o riso é solto e forte e faz tremer o corpo, e o chão, e é riso feito de céu e de desespero, e de um vento dentro, porque é sempre mais forte e violento o riso que ninguém sabe, mas que é um riso que crava os dentes na dor feito bicho em sua presa, essa dor que é um cavalo selvagem que a mulher tem que segurar pela rédea, sem ninguém ver. Algumas vezes, a mulher terá vontade de soltar a rédea, mas serão poucas, então vai se trancar em banheiros públicos, as duas mãos na boca, uma sobre a outra, para segurar a dor do lado de dentro, apenas o sal derramando-se, em silêncio e imóvel. Na maior parte do tempo, porém, ela vai simplesmente rir o seu riso forte e fundo e ninguém vai ver, e nem poderia, e será sempre incomunicável, porque a mulher que chora sabe que toda tristeza, ah, é uma língua estrangeira. Essa mulher que escreve sempre na terceira pessoa, e escreve coisas que as pessoas acham bonito, e acham sem entender. E, no entanto, ela usa palavras tão simples: chuva, vento, música, riso. Por isso, nessa noite, com palavras simples, ela responderá às perguntas do desconhecido, e vai se misturar às perguntas, e depois à música, e depois às pessoas na praça, para sumir. Como o choro sumindo em toda água doce que é do céu que vem, caindo, essa mulher vai conseguir se misturar e sumir. E ninguém saberá, no ônibus, quando ela agarrar forte uma mão na outra, debaixo da bolsa, morder o lábio e virar o rosto para a janela, onde haverá, talvez, atrás de um véu de água e de sal, sem ninguém nem ver, e escondido, o céu um pouco.

fábula

15/ 4/ 2010

eu queria contar a história de um menino e de uma menina, e no meio um rio correndo, e de quando eles esvaziaram o rio com as mãos em concha, até sangrarem os dedos, e andaram por dias e dias, no leito seco do rio, para no meio se encontrarem, no leito morto do rio, nas pedras do fundo, no seu amor sem centro, e molharem de barro os pés, para no barro lavar

o amor

e no resto de rio nos dedos lavá-lo, o amor que era sempre sujo do rio que mataram, mas nas mãos persistia, e depois nos olhos, e dentro, o rio que persistia, na limpa doçura que buscavam, até inventarem a chuva, e de chuva lavarem o amor, e por dias e dias seguirem a chuva, até novamente ir se formando o rio, e a cada dia os dois devolverem ao rio um pedaço, e com tristeza devolverem, e com alívio, até de novo correr o rio no meio, e lavar-lhes as mãos, os olhos, e dentro, e violento abrir uma fenda, ao longo do leito que não seguiram, em direção à porta que jamais abriram,

para o mar.

Ao céu que entra

2/ 3/ 2010

o céu, quando entra
em mim, a noite não entorna
o escuro, quando cai
em mim, a noite apenas
afunda
as estrelas, feito semente na terra
mais escura, a noite enterra
o céu em mim, quando cai
toda luz me escorre
dentro, violenta e pura

para as estrelas.

Devagar abra o corpo, e com as mãos, e dentro, deixe chegar o sol, e deixe que te atravesse o peito, e cruze o céu, e te cubra. Com tinta cubra o corpo, e sob o sol o enterre, no peito, este livro exausto, as páginas marcadas pelo mau uso, o texto forte e brilhante, e corra este rio com as páginas, e bata contra as pedras, no peito, este rio escuro, e caia como a noite sobre o corpo. De escuro o cubra, como um véu, e o feche de repente, no peito, como um livro nunca escrito, as páginas brancas, o coração jamais lido, e sem ilustrações. Novamente o abra, e devagar e mais uma vez escreva o coração, e com as mãos, e se arder assopre, se sangrar aceite, e se for rio beba, e deixe o peito escorrer negro e vermelho, e com o corpo o enxugue, e à força o abra, mais e mais, para o coração, e entre, e em silêncio o esgote, com o sol, e por dentro o lave da escura solidão do que já foi escrito. Depois, sobre o corpo aberto e limpo, escreva apenas de branco sobre o branco, e com força escreva, e o papel rasgue, a mesa arranhe, e seja para ninguém jamais ler, e se doer aceite, e com raiva escreva, no peito, e fundo, neste corpo aberto, e para sempre, cubra o sol

com o sol

apenas.

Jasmim

15/ 12/ 2009

Posso atravessar o deserto, se dentro de mim ainda houver

uma flor

pequena delicada sem espinho,

a flor que consigo,

essa flor que dura,

mesmo sob o sol,

mesmo contra o sol,

furiosa,

um fogo de ramos perfumados, crescendo para dentro

da casa,

do quarto,

do peito,

através das janelas quebradas,

contra o vidro,

essa flor que fende as rochas,

e no corpo me enraíza,

e com perfume me atravessa,

mesmo que dentro de mim rasgue-me o vento, a areia,

e caiam as folhas,

e ninguém ouça o ruído imperceptível

da dor que derramam os ramos,

e venha a noite ou o pranto ou o dia ou o vento,

ou uma fenda aberta na pedra,

na carne,

no branco coração,

e cubra de areia o coração soterrado,

mesmo sem um qualquer fio de água no peito,

contra as pedras,

para me lavar da áspera solidão

do que está gravado,

posso atravessar o deserto, se dentro de mim ainda houver

o branco coração

de uma flor intacta.

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